O deslumbramento da Madeira aos primeiros aromas e paladares natalícios adensou-se neste Dezembro de 2010 graças à farta ração de felicidade que o velho das barbas alvas nos deparou. Primeira dádiva celeste, a recandidatura de sua majestade, nervosamente desembrulhada na ceia dos autonomistas social-democratas. A notícia tresanda de velha, mas confirmou-se que a Região não fecha de vez em 2011. Os comunas festejariam se o tiranete zarpasse. Já os reais madeirenses glorificam um recandidato que aceita sacrificar-se à espinhosa missão de continuar a espatifar os milhões de Lisboa e da Europa e ainda os nossos impostos, governando a maioria e deixando a minoria fiel governar-se. E agora sem velhos, a quem o líder ancião passou guia de marcha para o Lazareto. O voto inteligente do povo trará ventura na segunda-feira pós-eleições, em Outubro: todos felizes a caminho do desemprego, da escola desqualificada, guerra social, neo-emigração, colapso turístico, calotes e falências em catadupa. O eleitorado premeia o messias sem o qual seríamos ainda hoje um povo de vilões a trepar córregos de corsa e de viloas a cozer milho a lenha, com água da fonte, e a bordar à luz do candeeiro a petróleo. Pergunte-se aos ressabiados que seria de nós sem ele. Que Único Importante restaria para se gabar 'eu fiz, eu faço e aconteço, eu obro, eu chovo, eu trovejo, eu relampejo, eu ofendo, eu enxovalho inimigos e discípulos, eu mando, eu meto medo aos papalvos, eu açoito-os enquanto me beijam os pés, eu bato e agradecem-me, eu inauguro, eu, eu e eu!' Algum outro estômago aguentaria beberetes todas as tardes? Outra cabeça desovaria cavilações e falácias em catadupa para encher tv e jornais, três e quatro vezes ao dia? Que Bar do Henrique, sem ele? E as nossas duas casas no Areal, as alvoradas nas eleições para galvanizar tascas e adros? Quem se riria na cara do povo? Ouvimos os recalcados: sem o banha-de-cobra, talvez algum quadro se houvesse imposto com uma política sustentada e reprodutiva, de modo que a Região em 2010 não definhasse refém da caridade 'cubana' e comunitária. E talvez a democracia viesse - dirão mesmo esses traidores, para deslustrar a candidatura que devolveu esplendor à 'Madeira nova'. Ora, vão tratar do psiquismo. Sua majestade - segunda prenda do Pai Natal - voltou aos debates no parlamento, usando a velha táctica da malcriação e do insulto, chamando os adversários de miseráveis para baixo. Até para não levarem a brincar o pretexto natalício de "esmagá-los todos", arrepiante ameaça que deixou muitos comunas a tremer como varas verdes fustigadas pelo vento de SW. Durante o debate, quando chefe e Jaime discursavam grosso até ficarem afónicos, os visados pelas ameaças sentiam fugir o terreno debaixo dos pés, gargalhando nervos e trancando-se no vestuário. Mas, fora as graças escatológicas e a excessiva importância ao DN, mais as citações bocejantes de caducos pensadores para vermos que o chefe lê, houve elevação e arte. Não com Garcês, chamado ao sarilho pelos quesitos de adormecer e baralhar qualquer auditório no aranzel de créditos incobráveis e reporte de prejuízos fiscais. A narrativa de terror arrastou-se com apartes do próprio chefe, para evitar que alguém apanhasse o discurso. O debate apurou-se foi quando Carlos Pereira do PS acusou sua alteza de não saber destrinçar entre receita e despesa. Então, grande chefe abriu o livro, literalmente, declamando o orçamento com garra. Momentos florais interessantes. A gaguejar números aqui, a soletrar PIBs com índices de disparidade acoli, ele interrompia-se para dizer que sabe ler um orçamento. Paranóia que faz temer a publicação no JM de todo o documento de Garcês em episódios, assinados pelo chefe, como costuma acontecer. Em diversas fases, entre 'vírgula isto' e 'ponto aquilo', chefe enfatizou partes aleatórias da peça, parecendo declamar umas quintilhas de redondilha maior, a resvalar para o verso decassílabo. O povo nada percebia, mas as rubricas cheirando a inauguração troavam como sonetos naquela garganta já enrouquecida. Num balanço crítico ao poema orçamental, digamos que dali sairá substancial reforço à dívida épica de seis mil milhões que o chefe reserva à posteridade. Caiu mal, repare-se, acusarem o gabolas de não resolver os reais problemas da Região. O próprio desmontou a falácia, narrando como, na ânsia de catrafilar ordenados, enfrentou a CGD por colonialmente lhe amolar a reforma. Anos antes, resolvera outro problema grave da Madeira, o de garantir o futuro do chefe do GR, assegurando um lugar para si próprio no Turismo. Há também empresários e novos-ricos que ao chefe devem as suas soluções, na vaga do nepotismo e compadrio reinantes. Se isto não é resolver os problemas da Madeira... Mãos largas, Pai Natal deixa-nos no sapatinho a recandidatura e um parlamento que nos depara debates como o desta semana. Parlamento longe do eleitorado, voz do dono e devidamente alheio das funções de fiscalizar o patrão. Sim, o governo emana do parlamento. O pior é que o parlamento emana da cabeça do chefe a quem a Madeira está entregue! Venha o hospital psiquiátrico de Coito Pita, porque o Trapiche não dá conta daquela "casa de loucos", como diz o rei quando não lhe chama "casa da autonomia". Obrigado, Velho das barbas, por mais quatro anos de chefia única, vaidosa, invejosa, rancorosa, troglodita e desbocada. Que ofende a memória de um povo lutador e pôs de rastos os valores da geração actual. Que friamente hipoteca o futuro da terra. Que usa as desgraçadas ilhas porque não consegue sair dos regionais. Sem ele, Velho barbudo, quem animaria o arraial? Ficamos em dívida consigo, Pai Natal. Apresente a conta às gerações futuras. Entretanto, desfrutemos de um Natal fértil em carne de porco, licor, lapinhas, carros eléctricos e carrossel. Quanto a malabaristas, equilibristas, contorcionistas, palhaços ricos e pobres, ilusionistas e anestesistas de feras circenses - desses artistas policurvos aturamos todo o ano.