...nem sempre é melhor que a minha. O turismo exemplifica bem isso. A Madeira nem sempre está no rabo da lancha e por vezes é preciso lembrá-lo. De fora, conseguimos detectar melhor essa evidência. Não se vêem apenas os defeitos. No que toca a bem receber, damos cartas. Muito deve aprender-se, e bem, nas escolas de hotelaria, mas acho que não é só por aí que o nosso turismo se afirma como destino de excelência no Mundo. Acho que cada madeirense tem um guia túrístico dentro de si, que sai sempre que alguém lhe pede uma orientação simples. Mesmo uma pessoa menos formada, que não domine nenhuma língua para além da de Camões, faz um esforço por ajudar. Quanto mais não seja falando alto e devagar. Gesticulando sem parar, em cenas que se assemelham a sketches humurísticos dos Gato Fedorento. A maior parte das vezes não ajuda o interlocutor, é certo, mas, pelo menos, consegue fazê-lo sorrir com a generosa e sincera hospitalidade. Acho que não há madeirense que não ‘venda’ bem a sua terra. Que não a promova a custo zero. Faz parte da nossa identidade. E talvez porque cresci neste ambiente me cause tanta estranheza – usando uma palavra simpática – pessoas que recebem os fosrasteiros com desdém. Tanto mais quando se está em plena Europa, em cidades que têm obrigação de estarem abertas ao Mundo. Fico estupefacta quando se pede uma indicação num hotel junto a uma estação de comboios central de França e respondem qualquer coisa do género: ‘Sim, há comboios para lá, mas eu não sei nada disso vá lá e pergunte. ‘Pardon?’. Ou quando, perdida nos corredores do Parlamento Europeu, em Estrasburgo, cometo ‘a gafe’ de fazer uma pergunta em inglês a um funcionário. ‘Je ne parle pas anglais’. Acho estranho que não arranhe qualquer coisa em inglês, trabalhando num local onde tantos idiomas e culturas se interligam, mas mais do que isso questiono a forma ríspida como respondeu. Em dois ou três dias, recolho uma mão cheia de maus exemplos. Recordo-me das vezes em que critiquei os menus de restaurantes portugueses por privilegiarem primeiro em inglês e vi as coisas com outros olhos. Continuo a achar que devemos defender a nossa cultura, a nossa língua, que é a nossa pátria, mas isso não é incompatível com o bem receber. Com o fazer os outros sentirem-se em casa. É que não há dúvidas de que as paisagens insulares vendem-se por si mesmo. Mas se não fosse o calor humano, acredito que a maioria não ansiaria por um regresso ‘as soon as possible’. P.S. Nesta crónica se calhar deveria ter falado da sucessão de Jardim a Jardim, ou do regresso do presidente do Governo Regional à Assembleia, mas perdoem-me por hoje ter preferido falar de coisas boas. Do que a Madeira tem de melhor.
...nem sempre é melhor que a minha. O turismo exemplifica bem isso.
A Madeira nem sempre está no rabo da lancha e por vezes é preciso lembrá-lo. De fora, conseguimos detectar melhor essa evidência. Não se vêem apenas os defeitos. No que toca a bem receber, damos cartas. Muito deve aprender-se, e bem, nas escolas de hotelaria, mas acho que não é só por aí que o nosso turismo se afirma como destino de excelência no Mundo.
Acho que cada madeirense tem um guia túrístico dentro de si, que sai sempre que alguém lhe pede uma orientação simples. Mesmo uma pessoa menos formada, que não domine nenhuma língua para além da de Camões, faz um esforço por ajudar. Quanto mais não seja falando alto e devagar. Gesticulando sem parar, em cenas que se assemelham a sketches humurísticos dos Gato Fedorento. A maior parte das vezes não ajuda o interlocutor, é certo, mas, pelo menos, consegue fazê-lo sorrir com a generosa e sincera hospitalidade. Acho que não há madeirense que não ‘venda’ bem a sua terra. Que não a promova a custo zero. Faz parte da nossa identidade.
E talvez porque cresci neste ambiente me cause tanta estranheza – usando uma palavra simpática – pessoas que recebem os fosrasteiros com desdém. Tanto mais quando se está em plena Europa, em cidades que têm obrigação de estarem abertas ao Mundo. Fico estupefacta quando se pede uma indicação num hotel junto a uma estação de comboios central de França e respondem qualquer coisa do género: ‘Sim, há comboios para lá, mas eu não sei nada disso vá lá e pergunte. ‘Pardon?’. Ou quando, perdida nos corredores do Parlamento Europeu, em Estrasburgo, cometo ‘a gafe’ de fazer uma pergunta em inglês a um funcionário. ‘Je ne parle pas anglais’. Acho estranho que não arranhe qualquer coisa em inglês, trabalhando num local onde tantos idiomas e culturas se interligam, mas mais do que isso questiono a forma ríspida como respondeu.
Em dois ou três dias, recolho uma mão cheia de maus exemplos. Recordo-me das vezes em que critiquei os menus de restaurantes portugueses por privilegiarem primeiro em inglês e vi as coisas com outros olhos. Continuo a achar que devemos defender a nossa cultura, a nossa língua, que é a nossa pátria, mas isso não é incompatível com o bem receber. Com o fazer os outros sentirem-se em casa. É que não há dúvidas de que as paisagens insulares vendem-se por si mesmo. Mas se não fosse o calor humano, acredito que a maioria não ansiaria por um regresso ‘as soon as possible’.
P.S. Nesta crónica se calhar deveria ter falado da sucessão de Jardim a Jardim, ou do regresso do presidente do Governo Regional à Assembleia, mas perdoem-me por hoje ter preferido falar de coisas boas. Do que a Madeira tem de melhor.