Vemos, ouvimos e lemos Não podemos ignorar Relatórios da fome O caminho da injustiça(…) Sophia de Mello Breyner Aproxima-se a passos largos a quadra natalícia. Já se sente o espírito de boa vontade e de solidariedade a pairar no ar, contagiando tudo e todos. Para isso contribuem as luzes multicoloridas que acendem a cidade depois do pôr-do-sol, as canções que ecoam um pouco por todo o lado, lembrando que o Natal está aí e que sentimentos que deviam ser transversais o ano todo e que a maior parte das vezes são ignorados, devem acompanhar os sons, a luz e a cor que transborda pela cidade. É também comum, por esta altura, a formulação de votos, desejos do que cada um de nós espera que o Natal traga, sempre envolvidos por esse espirito de generosidade e esperança, que parece que a todos assola no mês de Dezembro. O meu desejo é simples. Vamos deixar de fazer de conta. … de fazer de conta que não lemos, nem ouvimos, nas notícias diárias, que aumenta o número de pobreza extrema em Portugal e que a fome atinge um número assustador de população. … de fazer de conta que não sabemos que é na escola que uma grande percentagem das nossas crianças e jovens encontram a única refeição do dia. …de fazer de conta que estes casos existem apenas num país inventado, ou são uma realidade inventada. … de fazer de conta que estes casos não existem na porta ao lado da nossa. Na nossa rua. Na nossa cidade. Na nossa região. … de fazer de conta que Portugal está a aumentar os níveis da qualidade educativa. … de fazer de conta que o desemprego não aumenta; que não há empresas e fábricas a encerrar. … de fazer de conta que a crise caldeada no divinização do mercado financeiro, não atinge, de forma brutal, os que menos podem, os mais indefesos, os que pagam integralmente os seus impostos, os que constituem os pilares essenciais da sociedade. … de fazer de conta que não há milhares e milhares de pessoas que se sentem impotentes na luta pela sobrevivência, com dignidade. … de fazer de conta que não há destruição de direitos e garantias sociais. Gostava que neste mês de Dezembro deixássemos apenas de olhar para a realidade e começássemos, efectivamente, a ver. Não estou a pedir muito. Apenas que se cumpram os Objectivos do Desenvolvimento do Milénio, definidos no ano 2000, e adoptados pelos 189 membros da Assembleia-Geral das Nações Unidas. Os grandes objectivos assentavam em compromissos que passavam por promover a Paz e a segurança dos povos, concedendo prioridade ao desenvolvimento sustentável e à erradicação da pobreza. À época estabeleceu-se o prazo de 15 anos para o cumprimento dos mesmos. Passaram 10 anos e o balanço não é muito feliz. Até quando vai continuar o 'faz de conta'? Que os desejos e os sonhos de todos os que ainda têm capacidade de sonhar se realizem! Boas Festas!

Marília Azevêdo