Não é a primeira vez que penso no facto do nosso mundo estar a aproximar-se do "Admirável Mundo Novo" (livro do Huxley, escrito em 1932). Na época de Natal, isto é ainda mais evidente. Basta estar atento à TV para reviver a leitura deste livro, onde em determinado momento, um dos Administradores, de nome Mustafá Mond, explicava que antigamente "(…) a maioria dos jogos não possuíam mais acessórios que uma ou duas bolas, com algumas varas e talvez um pedaço de rede. Vejam a estupidez que existe em permitir às pessoas a prática de complicados jogos que de nada servem para aumentar o consumo. É loucura. Actualmente os Administradores só dão a sua aprovação a um novo jogo quando possa ser demonstrado que ele exige pelo menos tantos acessórios como o mais complicado dos existentes." Vejo tudo o que a publicidade me quer fazer comprar. Questiono de que forma todos aqueles jogos, brinquedos, gadgets ou acessórios alimentam ou encorajam o nosso espírito criativo e dou por mim a perguntar se não existirá no nosso mundo algum equivalente do Mustafá Mond, que defenda (tal como no livro) que "Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros." Uma festividade religiosa que começou com um nascimento humilde, evoluiu para uma orgia de consumo. Menino Jesus? Quem é esse? "Deus não é compatível com as máquinas, a medicina científica e a felicidade universal. É preciso escolher. A nossa civilização escolheu as máquinas, a medicina e a felicidade."
Roberto Macedo Alves, Desenhador de BD