Os Portugueses ficaram ontem a conhecer 50 medidas governamentais que têm em vista estimular a economia nacional, que é o mesmo que dizer salvar o País da bancarrota. A lista é grande. Algumas são recorrentes nos programas de governo dos últimos anos e pouco trazem de novo. Nota-se, isso sim, uma grande preocupação, em cobrar os impostos, em evitar que os pequenos comerciantes e os trabalhadores – os eternos sacrificados – fujam ao fisco, penalizando, uma vez mais, a massa salarial que, como bem sabemos, continua a ser espremida pelas constantes reformulações (entendam-se aumentos) de contribuições, impostos e taxas. Nota-se uma preocupação de levar mais produção nacional para fora do País, fomentando as exportações, nomeadamente para países emergentes, onde aumentam os consumidores, e onde os cidadãos ganharam, nos últimos anos, mais poder de compra, ao contrário dos Portugueses. Aí tudo bem, Deus queira que as empresas nacionais tenham sucesso e que Portugal recupere em divisas, o que tem faltado em iniciativas próprias e que se perdeu pela falta de competitividade do sector produtivo nacional. Falta-nos uma cultura de consumo dos produtos nacionais, de forma que as fábricas nacionais trabalhem mais e produzam em quantidade que justifique a descida de alguns preços no consumidor, o que nos daria a possibilidade de criar mais riqueza e emprego. Nos últimos anos ganhámos, com a abertura de mercados, pela liberalização do espaço europeu, e pelos acordos com países terceiros, o direito de importar quase tudo, muitas vezes com mais qualidade e com menor preço, factos que são sempre bem aceites pelos consumidores. O leite de outros países europeus chega a Portugal mais barato, por via das quotas que a União Europeia impõe, os produtos electrónicos e informáticos vêm da Ásia, onde a competição através de mão-de-obra escrava, nos afasta das iniciativas nacionais de produção, mesmo que sejam apenas de montagem, nesses sectores. Enfim… desmorona-se a produção nacional. Ganhámos apenas o luxo de termos disponíveis produtos que num mercado liberal estão à mão de qualquer cidadão, desde que tenha posses para o adquirir. É o consumismo desenfreado. Nos últimos anos, quando as indústrias automóvel e de produtos eléctricos e electrónicos começaram a ter dificuldades, os EUA aprontaram-se a subsidiar as empresas fabris, para que os produtos continuassem a chegar ao mercado aos mesmos preços e para evitar o colapso industrial, o que nalguns casos não foi uma boa solução, pois as empresas pagaram as dívidas e a produção ficou condicionada ao mercado, onde circulava menos dinheiro. No Brasil, Lula da Silva, optou por um processo de sucesso: preferiu subsidiar os preços na venda ao público, e permitiu que as fábricas mantivessem o mesmo ritmo de produção, com o resultado que bem conhecemos e que colocaram o país entre os seis mais industrializados do mundo, com reflexos positivos na vida dos brasileiros. Em Portugal, nem sei o que foi feito de concreto. As notícias são desencontradas, e o apoio que o Governo diz ter prestado perdeu-se pelo constante decréscimo do poder de compra dos Portugueses. As fábricas continuaram a fechar e o desemprego é galopante. No consumo falta-nos uma cultura de comprar ‘Fabricado em Portugal’, agravado pelo complexo piroso de que a nossa qualidade é má, quando confrontada com etiquetas escritas noutros idiomas que não o nosso. E assim perdemos esse orgulho de identificarmo-nos com a produção nacional. Por culpa de todos, mas muito porque a opção de consumir produtos nacionais sai mais cara, porque os custos de produção são mais altos, se bem que, felizmente, tenhamos produtos que são tão bons ou melhores do que aqueles que importamos do estrangeiro. Esta é a triste realidade num País que importa a maioria daquilo que come. Melhor seria que todos os que têm responsabilidade de gestão da coisa pública pensassem em como produzir mais, com qualidade e preço para abastecer o mercado nacional, criando novas empresas e mais postos de trabalho. As medidas anunciadas ontem é mais do mesmo e têm o pecado maior de tomarem as empresas nacionais e os portugueses como potenciais criminosos e entidades propensas à fuga dos impostos e das suas obrigações. Um povo satisfeito e feliz pagará, certamente sem reclamar, os impostos que sustentam a máquina administrativa e os investimentos públicos. O que este Povo não quer é ganhar pouco, ser tratado como um marginalizado no espaço europeu, nem ler com tanta frequência relatos de escândalos e espertezas em que estão envolvidos os que, por dever nacional e juramento, prometeram servir o País e trabalhar com dignidade para os cidadãos que lhes pagam o salário. Mesmo que seja maior, mas que justifiquem a despesa. Não necessitam de ser mal pagos, se o País ganhar e se os cidadãos chegarem ao fim do mês com as contas pagas e sem fome. Baixar salários a governantes ou à função pública é uma esperteza saloia, uma medida de montra e fachada, se bem que muitos estejam acima do que se paga mesmo em países que têm um PIB superior ao nosso… e já são muitos! Para isso reformulem-se os quadros e adaptem o País à dimensão que deve ter.