Acho estranho que os serviços e as autoridades de saúde não tenham tido ainda, no mínimo a curiosidade, para tentar perceber porque razão os madeirenses são os portugueses com a menor esperança média de vida. Porque motivo os homens cá vivem menos seis anos do que na região centro e as mulheres quatro? Porque morremos mais cedo se vivemos num meio que oferece às populações um dos mais elevados índices de qualidade ambiental e de vida? Porque somos tão efémeros quando a natureza é tão generosa?

Teremos um sistema de saúde discricionário? Uma rede hospitalar que não funciona para todos de forma igual, que raciona com excesso de zelo os fármacos e que emprega médicos e enfermeiros desmotivados? Estaremos condenados a recorrer às clínicas privadas para sairmos certos de que o diagnóstico foi completo? Estarão os tratamentos e os medicamentos ao alcance de todos? Estará a velhice a ser tratada com a dignidade de um direito consagrado? E estamos a morrer certos de que a medicina esgotou todas as possibilidades?

E quantas das 2.642 mortes registadas no último ano tiveram como causa as toxicodependências e, em especial, o alcoolismo? Porque há tão poucas camas para tanto doente? Porque aceitamos a marginalização dos toxicodependentes de toda a espécie? Porque não somos capazes de levantar um bêbado caído na rua? Porque teimamos em vender vinho seco a granel quando são conhecidos os efeitos cancerígenos que ceifam o direito das populações a envelhecer com qualidade e estilo? Quando deixará o vinho seco de ser uma bandeira eleitoralista? Porque raio o populismo e a hipocrisia abafam o conhecimento e a razão? Até quando se confundirá veneno com tradição?

E que peso e evolução conhece o suicídio? Até que ponto não falar dos acontecimentos tem contribuído para reduzir a expressão da tragédia? O tabu não será uma solução disfarce? A psiquiatria terá capacidade para, com os parcos recursos humanos e materiais, acudir a um fenómeno social global que deixou de se manifestar no antro do íntimo para saltar para as praças públicas? Estaremos a saber ler os sinais? Para que abismos caminhamos?