Na sua edição de 10 de Novembro passado o DN publicava uma reportagem intitulada «Promoção exige responsabilização» no âmbito da realização da World Travel Market , uma das maiores Feiras de Turismo da Europa e do Mundo.

Aí se dava nota da aparente divergência da Secretária Regional do Turismo, Dra.Conceição Estudante, com o Secretário de Estado do Turismo, Dr.Bernardo Trindade, sobre o papel da gastronomia na promoção e atracção de turistas á Madeira, e a Portugal em geral. Analisando mais de perto o tema, quer um quer outro não deixam de ter razão. O Secretário de Estado porque, de facto, a gastronomia e os vinhos constituem um dos factores de maior satisfação dos turistas que nos visitam nos inquéritos sucessivamente efectuados sobre as expectativas dos turistas quando escolhem Portugal como destino turístico. Ao ponto do Plano Estratégico Nacional de Turismo identificar a «gastronomia e vinhos» como um dos 10 produtos estratégicos a promover no estrangeiro a par do «sol e mar» e do «turismo cultural», entre outros, como forma de enriquecer a proposta de valor do destino. A Secretária Regional porque, de facto, no caso da Madeira, a gastronomia não atingiu o patamar nem o grau de diversificação que se impõe neste domínio tal como podemos encontrar na generalidade das regiões do Continente e até nos Açores. Na realidade, para os turistas que visitam a Região, tudo parece resumir-se á «espetada de louro com milho e bolo do caco» (única), aos «filetes de espada com banana» e ao «bife de atum», a par do «bolo de mel» para múltiplas ocasiões. Mas será que esta escolha possível chega para fazer enriquecer a oferta gastronómica do turista que passa uma semana na Região ou que está disposto a voltar num futuro mais ou menos próximo? Penso sinceramente que não. Mas, ainda, será que só existem estes pratos no receituário tradicional madeirense, aquele que se transmite de geração em geração e se confecciona nos lares dos seus residentes? Porque é disso que o turista gosta, que o turista procura, em busca da diferença que anseia por encontrar em contraste com a gastronomia típica dos seus países ou locais de origem. Mas, porque não vemos esses pratos nos restaurantes mais frequentados por turistas, aqueles dos quais «se vai passando a palavra», com alguma ou outra excepção como é o caso, por exemplo, do «arroz de lapas» que se serve nos restaurantes do Seixal e que constitui por si só um motivo de opção ao nível da Costa Norte. Mas, poderíamos acrescentar outros pratos como a «cavala com molho de vilão»,as «semilhas murchas com ensopado de carne» (Seixal), o «milho com caldeira de peixe», o «atum salprezado com batatas»,etc. etc. Permito-me aqui citar, passe a publicidade, um recente almoço para cinco pessoas que tive oportunidade de degustar no bar/restaurante contíguo ao teleférico das Achadas da Cruz constando de um bife de atum ligeiramente «braseado» acompanhado de «semilhas rachadas com feijão com casca» servidas em travessa comum tal como se faz em nossas casas. Qual o turista que desdenharia esta sugestão de ementa caseira e com uma apresentação tão familiar? A gastronomia, de facto, não é uma motivação principal para uma deslocação á Madeira mas será concerteza uma motivação secundária que poderá elevar o nível de satisfação do visitante e pesar na sua hipótese de retorno ao destino que, como é sabido, é tão importante com captar um turista pela primeira vez. Mas, o que faz a Secretaria Regional do Turismo para tentar alterar este estado de coisas? Apesar da restauração ser um negócio de iniciativa privada, e muito bem, podem existir incentivos públicos, quer materiais quer promocionais, que podem ajudar a alterar o perfil da oferta gastronómica em prol do objectivo em questão. Não que qualquer restaurante com o licenciamento devido não tenha o direito a existir de acordo com os padrões do seu proprietário mas isso não o qualifica necessariamente para ser um restaurante seleccionado, inspeccionado e promovido pelo Turismo da Madeira como parte da sua oferta turística de qualidade. E, já agora, não será também a Secretaria Regional de Turismo responsável pela promoção do turismo «interno» á Ilha ou seja promovendo a deslocação dos residentes para conhecerem as belezas da Região e ajudar a economia local dos concelhos a Norte (Porto Moniz, S. Vicente, Santana) que cada vez mais se posicionam em termos de gastronomia como um «cluster» a apoiar e desenvolver? Voltando ao título do DN que me levou a escrevinhar estas linhas poderia concluir que se avançarmos por esta via poderemos então falar de «promoção e responsabilização». Para bem do turismo da Madeira!

Nuno Jardim Fernandes, Gestor