Há professores que nos marcam, informam e formam o nosso cérebro. Foi o caso de Regina de Castro e Abreu, uma grande professora de português com quem tive o privilégio de existir durante 3 anos na Francisco Franco. Menciono-a aqui, sem necessitar de valorizar as suas competências profissionais, para relevar a capacidade que tem de motivar os alunos para o exercício da fantasia, para a criação, no fundo, para plantarem o trigo e ceifá-lo (e nunca mais lhe dizer adeus como na canção heróica de Lopes Graça, Maestro). Por estas alturas da Festa, Regina passeava o trigo, ainda em sementes, pela escola, sem pudor nenhum por o fazer, com e num saco de plástico (ai a pronominalização: por fazê-lo ou por o fazer?!). Consta que um dia, não sei se fantasio, alguém terá observado qualquer aspecto menos agradável em relação à sua estética do saco de plástico no passeio do trigo, a que de imediato Regina respondeu: Eu Amo o Trigo! Tenho a certeza que quem fez este reparo era um daqueles zés que, com os braços a fazer quase um quatro e com a cara em cima duma das mãos - pois não aguentam o peso da massa cinzenta - desenham um perpétuo manguito para o mundo. O manguito tem a sua razão de estar essencialmente fundamentada nas dores de cotovelo, mas não tem razões de ser. A sua existência é parasitária aproveitando-se dos que de tudo se queixam não dando um passo para a mudança. Como é bonito verificar que um grade, não se sentindo bem numa determinada posição, facilmente dá meia dúzia de voltas e logo encontra a postura ideal sem fazer o famoso manguito. Como é bom constatar o apoio dos espectadores de teatro aos espectáculos que na Madeira e que no resto do País se fazem. Isto é mais que suficiente para não apostarmos na ladainha do queixume manguitado. Não faz de nós uns parvos: sabemos que a crise é um estágio e não uma condição. (...)

Élvio Camacho, Actor