Demagogia e política, como todos sabemos, andam de mãos dadas numa relação estreita. Tão estreita que, por vezes, é difícil distinguir onde acaba uma e começa a outra.
Faz parte do jogo político fazer o bem olhando a quem e, já agora, como e para quê.
Vem isto a propósito de duas medidas políticas anunciadas por estes dias.
Uma veio de Carlos César, presidente açoriano, que decidiu levar à prática uma remuneração compensatória destinada aos funcionários públicos dos Açores que recebem entre 1500 e 2000 euros mensais. A ideia é minimizar os cortes das medidas de austeridade.
Do outro lado do mundo, na Venezuela, o presidente Hugo Chávez anunciou que vai mudar-se temporariamente para uma tenda que lhe foi oferecida pelo líder líbio, Muammar Khadafi, disponibilizando a comodidade do palácio presidencial a famílias desalojadas pelas violentas cheias das últimas semanas no país. Chávez foi ainda mais longe e desafiou os membros do seu governo e até os comandantes das Forças Armadas a seguirem o exemplo. Ou seja, a instalarem os desalojados no conforto dos gabinetes que ocupam.
Ora, o que liga as medidas de César às medidas de Chávez? A resposta é simples: os dois têm realmente o poder e a legitimidade para decidir. É tão legítimo essa faculdade que lhes deu o voto, como são legítimas as leituras que se podem fazer das suas acções.
Claro que as duas medidas contêm uma grande dose de demagogia, de oportunismo e pretendem atingir um fim que vai além dos seus efeitos imediatos. Sejam eles compensar financeiramente funcionários públicos, ou realojar os desalojados das chuvas.
Mesmo assim, e por demagógicas que sejam as duas medidas, o mais extraordinário é que enervam primeiro aqueles que praticam a mesma demagogia, ou seja a classe política.
Que de outra forma se pode interpretar, por exemplo, a súbita clarividência de Cavaco Silva sobre a equidade nacional, ou o indisfarçável desconforto de Alberto João Jardim perante as medidas de Carlos César?
O que incomoda não é a demagogia, a caça ao voto, que, sejamos claros, todos os políticos praticam, o que incomoda é que, até na demagogia, é preciso fazer opções. Podemos optar por esta ou por aquela forma demagógica e optar gastar nela mais ou menos dinheiro.
E, neste aspecto, é tão demagógico distribuir dinheiro a cerca de três mil funcionários públicos açorianos, como investir dinheiro em estádios de futebol com o argumento de que vão servir para dinamizar o turismo na Madeira.
É tão demagógico mudar-se para a tenda oferecida por Khadafi, que de tenda só tem o nome, como Cavaco Silva vir agora dar aquela imagem de presidente interventivo e realmente preocupado com o país, quando todos estamos a ver que a real preocupação são as próximas eleições.
Mais ou menos exageradas, todas estas medidas são demagógicas e têm objectivos políticos claros.
A demagogia, infelizmente, dá votos, mesmo quando praticada sem a preocupação de a disfarçar. Mesmo quando não nega a sua proveniência portuguesa de esperteza saloia, ou o quase realismo mágico sul-americano de um presidente que vai viver para uma tenda de um líder líbio, enquanto o povo se passeia no palácio Miraflores.