Menino Jesus, pensei comigo… Se algumas crianças por esta altura andam a escrever a sua carta ao Pai Natal, a figura recriada pela sociedade comercial e por este mundo mercantil em que nós vivemos, porque não posso eu escrever uma carta à pessoa que mais admiro, que sei ser o principal caminho de salvação e Aquele que preenche o sentido da minha vida em todas as dimensões? Embora hoje esteja já fora de moda escrever cartas, porque as redes sociais da internet, os correios electrónicos e as mensagens de telemóvel roubaram-lhe todo o espaço. Face ao mundo novo da comunicação, a carta não tem simpatia, consome muito tempo face ao carácter instantâneo em que se tornou comunicar hoje pelos modernos meios de comunicação. Menino Jesus, tenho pena de Te dizer isto, o Teu Natal continua envolto ainda em muita hipocrisia e falsidade. As palavras doces e bonitas que utilizamos neste tempo soam a falso. Porque servem para nos consolarmos uns aos outros agora, mas logo depois da festa tudo volta ao normal. Este é um dos aspectos graves que enfeitam o Teu Natal. Outro aspecto inquietante, está no facto de muitas vezes as pessoas pensarem coisas muito bonitas, com propósitos extraordinários, mas logo a seguir nada do que se pensa é levado à prática. Como consequência deste pensamento, salta-nos uma imensidão de situações graves que afectam o nosso mundo, este mundo dos avanços científicos, este mundo da facilidade da comunicação, este mundo do desenvolvimento tecnológico, este mundo que dispensa Deus porque se sente capaz de solucionar por si, todos os problemas e dificuldades, esta sociedade que acha que pode tudo, onde os poderes públicos convivem em guerra constante com a natureza, as últimas ensinadelas sobre o mau tempo, pouco têm ensinado a quem devia aprender alguma coisa... São ribeiras de dinheiro engolidas pelo mar e poucos se importam com isso. Porém, continua a ser bárbara a pobreza, a fome, o analfabetismo, o álcool, a droga, a guerra, a destruição da família, as mães destruídas, os filhos abandonados, a violência doméstica, a prostituição, a infidelidade, a hipocrisia das várias drogas, a irresponsabilidade no trabalho, a corrupção social e política, a doença Sida, as mortes nas nossas estradas, a indignidade a que se vota tanta gente por causa do dinheiro ou de vida fácil, a maldita crise, que se faz pretexto para sugar o que resta dos mesmos, os mais fracos ou indefesos. Tantas e tantas manchas que perturbam o nosso mundo e que não permitem que o Teu Natal seja verdadeiro para toda a humanidade. Menino Jesus, a meu ver tudo isto ainda existe à nossa volta porque vivemos num ambiente geral de má vontade e de pouca aptidão para pensar no bem em favor de todos e não apenas para alguns. Por isso, deparamo-nos com discursos, conversas e diálogos muito bonitos e muito impressionantes emocionalmente, mas pouco eficazes quanto à prática e à acção que se desejaria. No silêncio da intimidade está outra gente anónima que ama radicalmente e sem condições, a não ser essa única condição, a do amor total pelos outros. A verdade do Natal está mesmo aí nesse mundo escondido, que quase ninguém se dá conta ou faz de conta que não existe. Os exemplos anónimos são aos milhares e tocam também a nossa alma dizendo, mesmo que seja baixinho, que o Teu Natal ainda tem brilho, muito brilho para muitos corações que se deixam enfeitar de amor, verdade, justiça e disponibilidade para servir os outros. Menino Jesus ajuda-nos a fazer o melhor presépio no lugar mais adequado da nossa vida. Bom Natal para todos.

José Luís Rodrigues, Padre