Este é, assumidamente, um artigo lamechas. Que procura falar de solidariedade. Não daquela que os políticos enchem a boca para proferir palavras em vão. Falo de solidariedade activa. Não sei se o conceito existe, mas sei a diferença entre um pensamento solidário e uma acção real. Em termos concretos será mais ou menos isto: pensamento solidário tive eu, no início da semana, quando soube que na recepção do DIÁRIO estava um casal de idosos que procurava ajuda para as filhas. Raparigas da minha idade, duas irmãs, que precisavam de uma cadeira de rodas. Uma simples cadeira de rodas para as tirar do chão ou da cama. Não tive dúvidas em dizer que sim, que o DIÁRIO ia procurar ajudar. E fizemo-lo. Uma equipa de reportagem foi à casa daquela família, no Curral das Freiras, viu, ouviu e contou. Quando soube dos pormenores, fiquei arrepiado. E pensei: fosse eu político com poder de decisão e situações destas deixariam de acontecer. Se a Constituição da República Portuguesa garante tantos direitos a pessoas ditas normais, por que não garantir direitos especiais a pessoas especiais?

Admito que fui um pouco utópico, que o mundo é mesmo assim, cheio de injustiças. Mas percebi que é possível alterar algumas coisas. Que alguns gestos podem representar uma mudança tremenda na vida de uma pessoa. Neste caso, na vida de duas pessoas. A isso chamo solidariedade activa. E quem a praticou foi um empresário, que tocado pelo realismo transmitido num excelente texto da jornalista Raquel Gonçalves, agiu imediatamente. Como? Da forma mais simples e concreta possível: fazendo chegar as duas cadeiras às duas irmãs.

Este foi um caso feliz que me encheu de alegria por saber que, de uma forma muito ligeira, ajudei alguém. Foi, de certa forma, a minha prenda de Natal.

Este foi apenas um caso de solidariedade activa de quem não teve dúvidas em ser generoso, mesmo sabendo que nem todos o podem ser. Mas quantos outros casos haverá nesses casarios escondidos entre vales e montanhas, onde a sociedade não vai, onde os políticos só vão em vésperas de eleições, onde a Segurança Social até vai mas diz que cabe à Câmara fazer uma rampa, onde os técnicos da Câmara dizem que o melhor é uma intervenção de fundo da Segurança Social ou do Instituto de Habitação, ou da Associação local, ou da Casa do Povo e da Paróquia.

Quantos casos de extrema necessidade vivem enclausurados entre quatro paredes. Renegados, conformados com a cruz que Deus lhes deu? Enquanto isso, a sociedade dita normal passa a vida a discutir quem sai da Casa dos Segredos ou a fazer contas para dar mais dinheiro aos clubes e a associações de duvidosa utilidade pública.

Admito que num universo de dez milhões de cidadãos seja difícil quantificar e actuar em casos concretos. Mas numa terra com menos de 300 mil habitantes isso não deveria ser possível. Porque todos nos conhecemos, porque todos somos vizinhos ou familiares de alguém que conhece situações que preferimos ignorar. É mais cómodo organizar a festa do pêro ou da banana do que pensar em dar condições de vida dignas para pessoas como nós, que pensam como nós, que sentem como nós, que falam como nós... mas que não andam, não são donas do seu corpo, não conseguem endireitar a cabeça. Tão simples como isso. E, no entanto, tão fatal ao ponto de as relegar para uma vida passada entre o chão sobre umas almofadas ou uma cama. Todos os dias, todas as semanas, todos os meses, todos os anos de uma vida.

Diz a Constituição que todos somos iguais. Mas, infelizmente, uns são mais iguais do que outros. Uns contam, outros não. Uns têm direitos e deveres, outros apenas a resignação.

Para terminar, só uma pergunta: pode um político dormir descansado sabendo de situações destas na sua aldeia, no seu concelho, na sua Região?

É claro que pode. A maioria destas pessoas até nem vota!