Quando há 30 anos a luz eléctrica desatou a coriscar em lares e veredas, o regime novo e benfeitor aproveitou para desligar a inteligência colectiva. Mas ninguém previa tão longa vida ao apagão intelectual. À época, o povo ainda pasmava: 36 anos de Salazar? Pois hoje desenha-se a queda do recorde salazarista, franquista e estalinista. Escuridão geral. Excepto quando 'rei sol' expande pensamentos. Impante e afectado como na inauguração do talho ou do remendo no beco, sua majestade preclaríssima iluminou a manhã de sábado com nova lição peripatética de política rural pregada aos conselheiros da maioria. Ponto 1 do sumário: mais quatro anos de Único a governar. Ponto 2: preparar a eleição interna dos próximos órgãos PSD - ou, no dizer do chefe, a escolha dos "companheiros a quem caberá a responsabilidade de continuar a liderar politicamente o trabalho". Companheiros responsáveis e a liderar? Os baronetes do laranjal sabem que não lideram nem mandam patavina. Mas ouviram, sem rir, o falaz incitamento. Faz-de-conta banalizado na política da paróquia. Tornou-se normal, inclusive, debater conclusões redigidas na versão final antes das reuniões. Atordoados no contexto, vacilam áulicos do castelo e empresários da praça: em privado, bradam a falta de condições do ditador, velho e relho, para ficar; em público, batem no peito pela perpetuação. "Bem está S. Pedro em Roma se tem que coma"... No mesmo pantanal, impressiona o estrebuchar dos parasitas do sistema. O fim aproxima-se, o futuro negreja, a hora urge. Dependem do chefe desde o dia em que, prosélitos safados, desprezaram ideais que pregavam por um lugar na fragata da tacharia. Hoje, continuam sugando erário a troco da sua missão bufa e lambe-botas, na insignificância de quem carece de luz e vida própria. Vazios de pensamento, relincham peçonha esporeados ainda por uns açuladores secretos que às ideias reagem com ofensas ao carácter, julgando-se erradamente a salvo no esgoto onde escondem o nome e os delicadíssimos telhados de vidro. A 'nervoseira' justifica-se. Eles sabem que um dia, no estrépito da mudança que a lei das probabilidades assegura inevitável, faltará covil seguro para cães-de-fila. Chefe, Único mas não eterno, por sua vez receoso de sufocar quando abdicar, prepara nova reencarnação, com discurso já bolorento: 'Eu faço obra, eu salvo a Madeira dos perigosíssimos traidores pagos por Lisboa.' Bom, quanto à 'obra', ele avoca o mérito de, em plena crise, fazer "aparecer coisas novas". O povo, embora anestesiado, vê essas novidades: falências, dívida regional crescente, calotes do GR às empresas, monstros de betão inacabados, projectos faraónicos para a bicharada cabrejar, aterro na baía, colapso do turismo, acabrunhamento social, pânico da chuva, guerras atiçadas. Tudo 'coisas novas', da lavra do chefe. Traidores: em 2007, era o garrote de Sócrates. Para 2011, moteja chefe das Angústias: "Sem porreirismos covardes ou pequeno-burgueses, combater internamente a 'quinta coluna' colaboracionista." Mesmo às cegas, o povo sabe que os visados não são 'inimigos da Madeira'. Pelo contrário, tentam resgatar a sua terra das garras dos insaciáveis falcões, ávidos das últimas vitualhas do processo. Que levará um povo a fingir-se hibernado quando pressente o abismo um pouco à frente, no caminho? Por que sufraga o regime da subsidiodependência, que uma nortada mais rija fará ruir tragicamente? O povo sabe: ao contrário do que diz o chefe, a desgraça insular não vem de Lisboa. A falaz autonomia social-democrata é a autonomia para o Jardim mandar em tudo. As gerações futuras em nada beneficiarão da 'obra feita', vão é receber escombros e pagar dívidas. O povo sabe: ao contrário do discurso oficial, a Região nada tem para rendibilizar, porque o dinheiro é usado na presunção de que "com milhões faço inaugurações, com inaugurações ganho eleições". O povo sabe: a 'Singapura do Atlântico' é mais um sedativo para o papalvo. O ensino é pior cá do que no Continente. As críticas à Justiça visam a sonhada regionalização, para o 'imperador das araras' sentenciar de polegar para cima ou para baixo. Os mais poderes reivindicados para o Parlamento significam poder total para o chefe. Os 'bonzos situacionistas' não estão em Lisboa, mas cá, imitando o PRP da I República responsável pelo beco sem alternativas que abriu chance à Ditadura de 1926. Os políticos "principescamente assalariados nos sectores dependentes do Estado" também existem na ilha, alguns até bi-assalariados, o povo sabe-o. A denunciada propaganda em Lisboa paga pelo erário tem paralelo ainda mais descarado na Madeira. A "inteligência colectiva" centra-se no mestre do sofisma, campeão do 'alapanço'. O povo conhece, porque sofre na pele, as chagas do regime feudal: compadrio, chantagem, delação, gangsterismo, paternalismo compulsivo, maniqueísmo, obscurantismo, grosseria, perseguição e revindicta. O povo sabe que criticar o guia da caminhada suicida não é atacar a Madeira, é tentar deter o guia da caminhada suicida. Mas o arrastar dos ferros da escravidão ensurdece o povo. Em vão se indispunha, enraivecia e rebelava o anti-absolutista Almeida Garrett perante a passividade dos compatriotas, na sua época. "Vendem-nos os desleais pegureiros de quem nos deixamos governar. Vendem-nos, enxotam-nos para a feira, a cajado e a latido, e mordedela de seus mastins. Vamos e nem gememos. Se um clamor de queixumes, se uma voz de desconfiança acaso surge, eis os clamores de 'rebeldes', as alcunhas de 'demagogos'... E a nação (o rebanho, direi antes) que se resigna e sofre, continua a caminhar para o exício!" Apetece (ao que chegámos!) parafrasear também o chefe ilhéu: "A população vive num conformismo insuportável e de imposta mediocridade sócio-cultural." A população de lá, claro. Bom apetite aos que suportam a intragável receita 'papas e bolos à moda do chefe'.
Luís Calisto