O país está de costas voltadas para as autonomias regionais. Na verdade, desde que não incomodem, podem bem ficar entregues à sua sorte. “Eles que se governem”. No entanto, quando a autonomia sai do papel e é exercida na prática, de acordo com as competências dos órgãos de Governo próprio e os seus critérios, cai o Carmo e a Trindade.

O executivo açoriano decidiu usar verbas do orçamento açoriano, que é inferior ao da Madeira, para minimizar o impacto da austeridade nos bolsos dos funcionários públicos açorianos. Segundo Carlos César, que pode decidir de forma diferente do continente segundo o Estatuto, esse é um garante de recuperação económica. O país crucificou-o e na esfera política não houve quem não lhe fizesse as mais duras críticas. Inclusivamente quem sugerisse que se reduzissem as transferências do Orçamento de Estado nesse montante, para que César não pudesse compensar e levar a sua avante. Ora, se César resolvesse furar as ilhas de alto a baixo estava tudo bem, como prefere salvaguardar os direitos dos funcionários público açorianos, diferenciando-os dos demais, a situação é grave. Ultrajante.

Quando o Presidente da República interrompeu as férias de Agosto para fazer uma comunicação ao país sobre o Estatuto dos Açores, olharam com enfado. Ninguém quis perceber o alcance das palavras de Cavaco Silva. Quando o PS e PSD deram uma prenda de Natal antecipada a Jardim e flexibilizaram, de mãos dadas, a Lei de Meios, dando carta branca ao presidente madeirense para gastar como quisesse as verbas da reconstrução, o país bocejou. Não pode depois chorar lágrimas de crocodilo, nem fazer queixinhas, se escolheu o “deixa andar”.

E Jardim, esse baluarte autonómico, também veio mandar mais umas achas para a fogueira, atirando o conceito que tanto defende na lama. Atacar a forma como os açorianos se governam é, de certa forma, atacar a Madeira. E ficou a cheirar a inveja, o que é feio e fica mal. Alguém acredita mesmo que Jardim está preocupado com o facto de os açorianos receberem mais que os continentais?. O problema aqui é que a Madeira não pode fazer o mesmo, porque estoura o dinheiro todo em obras, muitas de utilidade duvidosa. Para Jardim seria perfeito se fosse o Estado a pagar. Foi isso mesmo que argumentaram os deputados do PSD-M quando votaram contra o Orçamento de Estado.

Não estou a defender a medida de César. Apenas a lembrar, porque parece que o país esqueceu, que é tão legítima como Jardim construir mais uma praça ou praceta. Ele pode, porque deixaram. Mesmo que seja discutível ao nível da moralidade. O que está aqui em causa é um país que diz saber viver com as autonomias, mas na verdade não sabe. E ainda querem apurar o conceito na revisão da Constituição. Para quê?