Quando observo a actual crise económico-social, olho para trás e releio o que escrevi. Penso que, hoje, a opinião pública madeirense compreenderá melhor as posições que fui tomando sobre assuntos cruciais da nossa autonomia, em particular as posições que tomei sobre finanças públicas, finanças regionais e desenvolvimento. Mantenho-me fiel ao princípio de que "o que é verdadeiramente imoral é desistir de si mesmo". Respeito o princípio de que é preciso humildade democrática perante as escolhas soberanas do Povo. Por isso retirei-me da política activa. Mas mantive as minhas convicções. E o tempo vai ditando as suas leis e fazendo emergir a verdade. Tenho a convicção profunda de que rigor e responsabilidade na gestão pública são elementos essenciais de uma vida colectiva com dignidade e com futuro. Com mais Responsabilidade seriamos, hoje, mais Autónomos (a Região e o País). Alguma dúvida? Vejam o estado de dependência da Região de transferências do exterior e dos favores da Banca. Vejam o poder sobre Portugal que têm o Banco Central Europeu, a Alemanha e outros. Os próximos desenvolvimentos poderão ser a entrada do FMI em Portugal e um possível 'default' da RAM. Isto significará, na Madeira, que a Região entrará em incapacidade de pagamentos e que os seus credores não renovarão os seus créditos nem outros aceitarão substituir-se aos créditos anteriores (um 'roll-over' de financiamentos que, no passado, sempre permitiu manter uma fuga para a frente no endividamento). Será o colapso da economia pública e empresarial. Em alternativa, um corajoso e penoso reescalonamento da dívida trará mais austeridade, mais impostos e cortes sérios nas despesas públicas da Região. O poder político da Madeira perdeu, em 2007, quando a crise já estava 'anunciada', uma grande oportunidade para, atempadamente e com negociações sérias, afirmar princípios de Autonomia com Responsabilidade e Rigor. Se a demagogia e o populismo não tivessem prevalecido hoje a situação seria diferente - não seria fácil mas seria melhor. Ainda antes das eleições provocadas pela demissão do governo regional a pretexto da Lei das Finanças Regionais escrevi, em Abril de 2007: "… esses nossos antepassados (os heróis das levadas e dos muros e socalcos da paisagem rural madeirense) perante situações adversas partiram de um princípio essencial: 'nada lhes é devido; tudo está nas suas mãos a partir das suas próprias forças'. Uma autonomia responsável deveria ter reforçado este princípio em vez de alimentar o princípio inverso: 'tudo nos é devido'! Deveria dar-nos força colectiva para construir, por nós próprios, uma história de sucesso e de confiança, duradoura e sustentável". Não foi esse o caminho prosseguido pelo poder regional - sufragado, é certo. "Se comprares aquilo de que não careces, não tardarás a vender o que te é necessário", dizia Benjamin Franklin, no Século XVIII. Há princípios que são eternos…

Maximiano Martins