
Hoje celebra-se o dia da restauração da independência. Irra! Que esbugalhada expontaneidade para festejar! Que orgulho farçolas em ser português! Onde está o ânimo e em que pé caminha a moral? Onde mora a motivação para lançar 370 vivas pelos anos da instauração da dinastia portuguesa da casa de Bragança contra o domínio dos Filipes de Espanha? A única vez que ‘idolatrei’ D. João IV tinha eu 13 anos. Andava do 8.º ano e escrevi um excerto repleto de adjectivações, menções patrióticas e superlativos, qual epopeia casuísta, que mereceu um aplauso colectivo da turma, a pedido da professora. Fiquei corado e lembro-me de só ter pensado: “Glup! Espero nunca me arrepender disto!”...
Ora, se Portugal fosse a 18.º região espanhola, sendo-nos reconhecida nacionalidade histórica, que mal viria ao mundo? Esta Ibéria teria a maior Zona Económica Exclusiva do Mundo e a maior frota pesqueira da Europa. Partilhava entre os seus povos a grande fatia dos recursos minerais, santuários ecológicos e fontes piscatórias da região do Atlântico Norte. Ninguém teria de pedinchar a Bruxelas pela manutenção das quotas de pescado nem bater-se contra a imposição da política agrária comum, nem pela indústria conserveira ou todas as outras empresas que apodreceram nas trevas do antigo regime. Porque a Ibéria não era mais uma península de nações egoístas, mas uma potência ocidental que honra a história olhando o mar como oportunidade e investimento e faz da periferia os portos do coração da Europa.
Teríamos uma Ibéria sem fronteiras, onde seria possível percorrer auto-estradas de Madrid a Lisboa, de Bilbao a Portimão prosperando negócios sem taxas absurdas e portagens assimétricas. Onde ninguém era obrigado a atravessar a fronteira para comprar pão, gasóleo, roupa e água. Um país sem Tratado de Tordesilhas mas um povo que reclama a glória de campeões da Europa e do Mundo sem a bênção do Papa. Que exige, tal como acontece na vizinha Espanha, que as transacções multimilionárias de jogadores de futebol fossem tributadas com a devida proporção, ao invés da vergonha de termos um país com federações desportivas que se acham no direito de exigir regimes de isenção ou clubes subsidiodependentes que parasitam a mão que lhes dá de comer.
Por cá, ficaríamos livres das fartas insinuações políticas pró-independentistas sem fundamento numa ilha que um dia se afunda com o peso da dívida pública e onde se sobrecarregam de impostos famílias que procuram a sua própria independência financeira. Dispensaríamos um governo regional que domina mais a propaganda do que a gestão do bem de todos, que é mais monarca que republicano, mais papista que o papa, que é campeão nacional do défice, do fútil e da indisciplina. Dizer basta a um parlamento detentor de um alterego, que se coibe de fiscalizar quem manda, quem pode e quem executa, que é prepotente e imoral ao ponto de aprovar ‘jackpots’ sucessivos para os partidos enquanto o povo empobrece e se sagra campeão a tentar a sorte no Euromilhões.
Este é um mero exercício de reflexão que se impõe no dia da celebração da restauração da independência. Terá valido a pena? Que revoltas se nos afiguram hoje? “Nesta crise real e profunda, é urgente que se dê início ao fim da subsidiação massiva. Hoje devemos cada vez mais: pensar bem e agir melhor, convertendo a reinvindicação em crítica construtiva e solucionadora. Esta é a matriz dos visionários e dos empreendedores: persistência, humildade e esforço concretizador”. Se estas palavras não fossem proferidas há 139 anos (Antero de Quental, em “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, no Casino Lisbonense), diria que tinha sido o discurso de hoje. É que nada se alterou: De “portugueses intolerantes e fanáticos”, somos agora “os portugueses indiferentes”.