É a Kurt Lewin (1890 - 1947) que devemos muito do conhecimento sobre a dinâmica de grupos e os processos de mudança organizacional, mas também a formulação de acordo com a qual a melhor forma de conhecer uma realidade é tentar modificá-la. Na verdade, mais de 60 anos após o seu desaparecimento, as ideias de Lewin continuam intactas e plenamente aplicáveis em Portugal.
Na passada semana, em pleno Séc. XXI, o sistema partidário-político português -sem saber e sem querer- atestou a validade da formulação teórica de K. Lewin, ao reagir (como reagiu) a uma proposta de mudança no apuramento de responsabilidades políticas. Foi interessante ver a reacção dos políticos do partido que governa o país, face às declarações do líder do partido da oposição, a propósito da eventual criminalização dos actos políticos dos governantes.
Como é óbvio, independentemente dos méritos da proposta e da exequibilidade de se criminalizar determinadas práticas governativas, a reacção dos agentes do partido que está no poder foi elucidativa: não querem mudar nada, nem discutir. Apenas se perpetuarem. Perante a ameaça, que a proposta desalinhada comportava para o establishment político nacional, a reacção imediata foi de recusa liminar. Vi gente a falar de perplexidade, proposta irreflectida e imprudente, até com um certo ar de troça para disfarçar o incómodo. Também não vi muitos entusiastas no partido da oposição… Certo é que ficaram esclarecidos como os limites das responsabilidades políticas são muito mais curtos que os seus efeitos.
Em gestão fala-se sempre da necessidade de criar paridade entre responsabilidade e autoridade. Na política nacional essa paridade é indefinida e "resolve-se" em eleições que não apuram responsabilidades, mas que apenas elegem e substituem actores inimputáveis.
É sabido que na actividade empresarial a responsabilidade dos corpos directivos (gerentes, administradores ou directores), não se esgota nos limites patrimoniais das empresas. Para além de serem convidados a dar garantias pessoais, sob a forma de avales pessoais, fianças e cauções, respondem perante os accionistas das empresas "pelos danos a esta causados por actos ou omissões praticados" (nº1 do Art 72º do Código das Sociedades Comerciais). Se um gestor não entrega os impostos devidos ao Estado, independentemente da actividade ou situação da organização, é criminalmente responsabilizado. Só quando se trata de responsabilidades políticas governativas, não existem responsabilidades imputáveis para além das responsabilidades políticas. Que grande façanha de consequências previsíveis… Nada que um esquema de mobilidade nas listas eleitorais ou um afastamento temporal não resolva.
Portanto, o sistema partidário que pilota a nossa democracia, sem responsabilidades que não as políticas, prefere mesmo é a fossilização do sistema político e a vigência da imputabilidade da classe que governa o país. Antes isso a ter que ajustar as suas responsabilidades face às sucessivas anormalidades erráticas da sua actuação, de que as derrapagens e os desacertos orçamentais sucessivos são apenas indícios.
Na verdade, quaisquer intentos reformistas são incinerados pela demagogia de uma irresponsabilidade partidária, que se refugia sistematicamente no enclave inconsequente que é o pseudo-tribunal das eleições. Parece que os políticos portugueses só aceitam ter responsabilidade política, apesar dos seus actos enquanto governantes afectarem -para o bem e para o mal- o presente e, sobretudo, o futuro do país em todas as dimensões.
Kurt Lewin tinha mesmo razão.
Ricardo Fabrício