Assisto neste momento, manifestamente apreensivo, à insolvência de uma determinada empresa do ramo automóvel, localizada junto à maior superfície comercial da Madeira, em Santa Quitéria. Enquanto isso, os credores que dela resultaram (centenas, por sinal), esperam e desesperam pelo pagamento das dívidas. Outros, os particulares, anseiam pela regularização da situação dos seus veículos, na maior parte dos casos carros em segunda-mão, adquiridos com muito esforço e sacrifício por parte destes.

Esta é uma situação que já se desenrola por um período realmente considerável, e, pior do que isso: indefinida e sem um fim à vista. Tudo isto numa sociedade que se remete muitas vezes ao silêncio, ou aborda os problemas através da exposição de queixas em redes sociais ou em portais criados para o efeito (denúncias muitas vezes anónimas, temendo represálias, mas que apesar de tudo são formas de protesto tão válidas como outras quaisquer). Os administradores, por seu turno, e outro pessoal afecto a este pseudo-empresa (porque já nem de uma empresa se trata), assistem impávidos e serenos ao desenrolar de todo este processo, tornando-se, gradualmente, esquivos e completamente “alheios” a todas estas circunstâncias e ocorrências. Ostentarão certamente carros de grande cilindrada e passear-se-ão calmamente como se nada se passasse, preferindo atribuir a razão deste descalabro á malfadada “crise mundial”, que afecta inevitavelmente este país e consequentemente esta pobre região.

Eu próprio fui vítima deste enorme imbróglio judicial. Não só acho estranha a insolvência da empresa, mas, mais do que isso: mesquinha e repugnante a forma como se tratam os clientes. Acho igualmente indigna a forma como simplesmente não se honram os contratos e para quem a “palavra” não passa de um mero artifício verbal. Condeno veementemente a atitude pouco profissional com que se gerem este tipo de casos e a leviandade com que se desenrola todo este processo.

As ‘queixas-crime’, muitas vezes utilizadas, servem somente para alimentar este monstro, ironicamente designado de ‘justiça’. Esta deveria ser célere e tratar de investigar casos como estes, que consubstanciam ou indiciam claramente casos de burla. “Apurar responsabilidades” é qualquer coisa que não parece fazer sentido no meio judicial. Gostaria de conhecer o rosto desta gestão danosa, destas práticas verdadeiramente escandalosas e deste terrível escândalo financeiro (estamos a falar de milhões de euros, entenda-se). Não procuro “bodes expiatório”, nem tão pouco soluções fáceis: procuro justiça e pessoas sérias, mas não encontro nem uma, nem outra. A ‘justiça’ parece ser uma utopia, coisa demasiado romântica para ser levada a sério, e até os advogados duvidam dela nestes casos. Se alguém acredita nesta palavra e vive em Portugal, então está completamente descontextualizado.

Acho que se assiste a uma enorme crise de valores e a uma crise moral sem precedentes, e, para mal dos nossos pecados, localizamo-nos ainda numa região que não aprendeu a gerir e a investir o dinheiro que para ela é canalizado e vive claramente acima das suas possibilidades. Parecemos uma criança mimada que cresceu sem referências, com dinheiro disponível para alimentar qualquer tipo de caprichos, mas que, passados todos estes anos, tornou-se num adulto dependente dos pais, com mais de trinta anos e completamente “à mama” dos progenitores. O futuro será incerto, e provavelmente passaremos o resto dos nossos dias numa fila do instituto de emprego à espera de um qualquer subsídio de “reinserção social”, sem qualquer perspectiva de “reinserção” e muito menos sem a noção do que é “viver em sociedade”.

Só me apetece dizer, e como forma de revolta perante tal situação e conjuntura: “Que se apurem os responsáveis, ou eu próprio não me responsabilizarei pelos meus actos”. Tenho dito.

Rogério Gouveia Fernandes, Professor (de TIC)