
Para hoje, amanhã e quarta-feira está marcada uma greve no Serviço de Ortopedia do Hospital Dr. Nélio Mendonça, mas não quero fazer previsões sobre a adesão, nem muito menos discorrer sobre as razões que levaram os médicos a tomar esta opção.
A mim preocupam-me as notícias, os rumores e os factos que, quase diariamente somos confrontados sobre o estado da Saúde na Região. Em 2011 nenhum jovem médico vai iniciar formação no Serviço de Saúde da Região, os congressos médicos na Madeira perderam o patrocínio científico da Ordem dos Médicos e Sindicatos e responsáveis máximos da saúde continuam numa troca acesa de acusações. Se de um lado falam em ruptura de medicamentos, do outro vêm afirmar que nunca faltaram remédios para quem precisasse. Se de um lado dizem que há descontentamento, do outro vêm dizer que quem se queixa é geralmente quem menos tem razões de queixa.
Ninguém se entende e, tudo leva a crer que continuarão a não se entender no curto prazo.
Na Saúde, tal como nas outras áreas da sociedade, a verdade é que quem mais sofre com as indefinições, com as brigas justificadas ou descabidas, com as trocas e baldrocas, não são os directores, nem os chefes, nem os profissionais, nem os sindicalistas, nem as ordens.
Na Saúde, quando há instabilidade, mesmo que inteiramente negada por quem de direito, quem sofre é o utente, a pessoa que não tem possibilidades para pagar uma consulta no privado ou para recorrer a serviços no continente ou estrangeiro porque o salário só chega para pagar a casa e a alimentação. Na Saúde, quando chefias e profissionais não se entendem, sofre o velhote que tem de esperar num Centro de Saúde por uma consulta que nunca começa, ou a criança que chora nas Urgências.
Mais do que em qualquer outro sector da sociedade, a Saúde é aquele onde deviam imperar o altruísmo e a caridade e todos os ideais proclamados há já milhares de anos pelo Juramento de Hipócrates. É certo que todos têm direitos, e não apenas os utentes, os doentes que muitas vezes são chamados, e bem, de pacientes. As chefias querem bons resultados, os profissionais querem boas condições de trabalho, mas os utentes só querem ser bem tratados. Querem que a dor que sentem passe, querem que a operação que vai resolver este ou aquele problema de saúde seja feita, querem simplesmente deixar de ser doentes.
Mas quando o problema ultrapassa os utentes e a própria Saúde adoece, quem é que pode tratá-la? Então não há nada a fazer e os doentes continuam, pacientemente, à espera que apareça uma vacina rápida e milagrosa para que a Saúde fique, pelo menos transitoriamente, curada…