Mal soletro as primeiras palavras, denuncio a minha origem: "Sou da Madeira", com muita honra e prazer. Com 15 anos de "metrópole" em cima, quem me conhece - e até os que comigo estabelecem o primeiro contacto - fazem-me questão de lembrar o líder eterno da minha região, numa graçola inevitável em qualquer início de conversa. O único que conheci, pois um ano antes de entrar para a saudosa Escola da Carreira, onde aprendi as primeiras letras com o Professor Barreto, o Jardim mais badalado da Madeira já se tinha sentado aos comandos da ilha há um ano. Por estas bandas eu sou da "terra do Jardim". Por mais voltas que se possa dar é uma realidade intransponível. Qual Marítimo, qual Nacional, qual (pasme-se!) Cristiano Ronaldo. Para já não falar das bananas, do bolo-de-mel ou do vinho doce. Na capital do reino a Madeira rima com Jardim. Ponto final. E porquê? Porque como alguma habilidade e muitas "bocas" à mistura soube construir o seu espaço na comunicação social. Na verdade, mais pelo aspecto folclórico como aborda os temas, do que pelo seu conteúdo, habitualmente ziguezagueante. Uma tirada sua sobre o PSD, o primeiro-ministro, o Presidente da República ou da própria Assembleia da República merece logo citaçãozinha. Os media adoram espectáculo e com Jardim isso é mais que garantido. É truculento, (aparentemente) anti-sistema e atira em todos os sentidos, de dedo em riste. E a malta sorri. Pronto. Com 37 anos de idade começo ficar maçado, confesso. Não que não reconheça a famigerada obra edificada na minha Madeira, o melhoramento das condições de vida da população, o acesso generalizado à saúde e à educação. Não sou ingrato e aplaudo o que o "sr. governo" fez pela minha terra, apesar de saber, também, que só um mentecapto não saberia utilizar o dinheiro a rodos que a União Europeia fez chegar até nós. A Madeira é efectivamente um jardim, com muitos jardins, para todos os gostos e ocasiões. Temos o do Mar, o da Serra, o Municipal, o das Cruzes, o da Quinta Vigia, só para citar alguns. Os "cubanos" teimam, contudo, em referir-se apenas a um. A imagem que transparece cá é que nesse jardim, em pleno Atlântico, rareia o cultivo de elementares valores democráticos e de exercício da plena cidadania. Ou será que a diabólica e desalinhada comunicação social do arquipélago inventa tudo? Como é inegável que o líder está alapado à imagem da ilha, é também verdade que tudo continua a rodar à volta dos mesmos trinta de sempre (como disse o sociólogo Pierre Bourdieu). Há mais de trinta anos. E era bom que surgissem personagens novas, com ideias diferentes. Era importante renovar a mensagem de uma Madeira nova, sem quintas, sem delfins e sem dinastias. E porque não com novos jardins? P.S.: É com prazer redobrado que volto a escrever no DIÁRIO, casa onde iniciei a profissão de jornalista em 1993. Desde então continuo a ler este jornal todos os dias. É o primeiro órgão de comunicação que consulto. Conto fazê-lo durante muitos e bons anos, apesar de saber que os esforços para o calar se intensificaram.
Roberto Ferreira