Por estes dias, é inevitável não falar da crise. Aliás, quase que não se ouve falar de outra coisa. É como se não existisse mais nada. Entre os debates na Assembleia da República, as mensagens de Cavaco Silva no Facebook, as análises dos entendidos na matéria e de todos os outros treinadores de bancada, o país parece não ter mais História, nem mais histórias. Vivemos nesse limbo de uma crise, sob a ameaça do Fundo Monetário Internacional e completamente entregues à ditadura dos mercados.
No entanto, e apesar de não se ver, a vida continua.
Todos os dias, há um país que se faz a esse quotidiano que nos prolonga para além da economia.
Há gente que trabalha, que constrói, que cria, que ama, que odeia, que sente e desenha essa vida que ultrapassa os números, os índices, as taxas, as estatísticas.
É claro que este país deixou de se ver na voracidade mediática do tema do momento. E, se ficarmos só pelas grandes notícias, até se pode ter a ilusão de que a vida é um Orçamento de Estado. Mas não é.
Em cada novo dia, há um povo que se levanta, que trabalha, que continua a levar os filhos à escola e a regressar à noite a casa. Há crianças que continuam a aprender as primeiras letras, alunos do secundário que fazem projectos, universitários que recebem bolsas de mérito.
Há gente que dá a recebe solidariedade, há escolas e ruas da cidade e parques onde ainda se passeia. Há livros novos para ler, filmes para ver, ideias para debater. Há exposições e conquistas e derrotas e risos e choros. A vida continua lá fora e cá dentro, como coisa que não se trava, nem se mede pelo oscilar da bolsa e das taxas de juro.
É claro que também há a crise, mas também há a vida para além dela e apesar dela.
Podemos até estar, como disse o Frei Fernando Ventura, numa barraca com um submarino à porta, mas existe mais mar por onde navegar além das ondas escuras e furiosas das contas do Estado. Até porque o mais importante destas contas não são as discussões esteréis dos economistas que só agora parecem saber de tudo. Mais importante do que as causas são os efeitos. Mais importante do que os debates é o resto. Por exemplo, aquela notícia do Expresso que, na última edição, noticia que existem escolas que vão abrir as portas ao fim-de-semana para garantir alimentação aos alunos. É este o verdadeiro limbo da crise, desta e de todas as outras, que sempre se fizeram de um país desigual. Não é de agora, não é do FMI e da dívida, é de sempre e infelizmente é há demasiado tempo. É longa esta história de uma margem que nunca se fez ao largo. A memória é que, por vezes, é curta.