Agarra que é ladrão!

O Estado é ladrão, disse ontem Alberto João Jardim. Estranho. Não tanto a constatação, mas sim quem a verbaliza. Jardim, convém recordar, é membro do Conselho de Estado. Falta muito, é certo, mas tem lá lugar garantido. É presidente do Governo Regional logo, também por aí, uma figura associada ao Estado, embora governe apenas uma Região Autónoma. Se pensarmos um pouco, o estranho nem é Jardim dizer o que disse, com a irritabilidade com que o disse e com a ameaça de recurso aos tribunais. Estranho é que esta posição surge apenas quando se sabe da séria ameaça de o presidente ser um dos visados na legislação nacional que acaba com as reformas somadas a salários. Curiosamente, o mesmo Estado não foi ladrão quando decidiu, bem recentemente, fazer profundos cortes sociais. Não foi ladrão quando cortou nos abonos escolares, nem quando aumentou o preço da Educação. O Estado não é ladrão quando congela salários à Função Pública ou quando impõe aumentos de impostos que prometeu não aumentar. O Estado também não é ladrão quando inventa receitas através das empresas, levando-as à falência. E nem é ladrão quando desvia verbas para obras megalómanas ou quando tira dinheiro europeu para investimentos públicos no continente e os aplica - e bem - na reconstrução da Madeira. Trazendo o Estado para a Região, constata-se também que este 'Estado', na versão de Jardim, não será ladrão por não pagar, há dois anos, uma expropriação de 100 mil euros a uma idosa que vive com 300 euros por mês, ou por não pagar obras entregues e há muito inauguradas. Pela mesma ordem de razão, o Estado não é ladrão quando deve às farmácias e a quase tudo o que são fornecedores, quando faz obras inúteis, quando duplica estádios e espalha centros cívicos quase abandonados. Nada disso! O estado é ladrão, porque mexe nas reformas. Porque quer impedir o acumular de reformas com salários de profissionais no activo. Em suma, o Estado é ladrão porque, julgo eu, quer impedir Jardim de somar ao seu salário de presidente à reforma que diz ter direito, e que eu até acredito que sim. No meio de tudo isto lembro-me de que a maioria PSD rejeitou, por mais de uma vez, na Assembleia regional, uma proposta de complemento de reforma para idosos. Como faz o "Estado ladrão" dos Açores, que oferece aos idosos mais carenciados mais cerca de 50 euros por mês. É pouco, comparado com chorudas reformas, mas ajuda a pagar remédios e a pôr pão na mesa de alguns. Só mais uma achega: o Estado ladrão é apenas o nacional. O 'estado regional', que pode amenizar a austeridade se assim o quiser, fica-se pela queixa contundente que defende apenas umas dúzias de cidadãos entre milhares abrangidos pelos cortes que aí vêm. É pouco!