A 2 de Novembro de 2008, num plácido Domingo de Outono, o inefável Teixeira das Finanças anunciou ao perplexo País que o Estado Português decidira, a bem da estabilidade do sistema financeiro, nacionalizar o Banco Português de Negócios. O risco sistémico, a eminente ruptura de pagamentos e as perdas acumuladas de 700 milhões de euros foram as principais razões enunciadas para justificar a 1ª nacionalização em Portugal desde 1975. Passados dois longos e penosos anos sobre este solene embuste, a factura ronda os 7 mil milhões de euros, o processo de reprivatização não é mais que uma miragem, e as notícias sucedem-se a um ritmo alucinante, como acendalhas alimentadas pela insaciável piromania da comunicação social. E no meio deste turbilhão, quantos já dedicaram um breve instante a ponderar na dramática situação dos funcionários da instituição? Eu falo com conhecimento de causa, por ser um deles. Desde essa altura incumbido de tomar as rédeas da Agência do BPN no Funchal, senti na pele todas as angústias e sofrimento que centenas de colegas também experimentaram, por todo o País. É que talvez muitos não saibam, mas para nós ser do BPN não era apenas ser mais um bancário - sempre houve uma cultura de rigor, seriedade e transparência, valores que sempre acreditámos que nos distinguiam, e o primeiro rude golpe foi percebermos que quem deveria ser um estandarte desses valores - o Presidente Oliveira e Costa - não passava afinal dum reles ladrão. Que a justiça não o deixe descansar… Depois veio o Estado, suposta pessoa de BEM, e foi-nos pedido que perseverássemos, que continuássemos a acreditar, a dar a cara, a suportar com estoicismo as vicissitudes, a lutar por uma causa… Num quadro de extrema dificuldade, enfrentando os cenários de crise, as difamações da concorrência, os medos insuflados pelo jornalismo sensacionalista e as atoardas inanes e irresponsáveis da esquerda "caviar", mantivemo-nos firmes. Passámos todos por momentos muito difíceis, que em alguns casos chegaram a traduzir-se em ameaças de morte, em que parecia que tudo o que tínhamos ajudado a construir estava a um pequeno passo de ruir, destruído pela inexorável voragem da calúnia. Devido a erros alheios e á criminosa indefinição dos nossos governantes… Mas cerrámos os dentes e aguentámos! Nos Estados Unidos, o piramidal Madoff foi julgado e condenado num ápice; por toda a Europa, os bancos intervencionados pelos Estados viram a sua situação rapidamente resolvida; em Portugal, passaram dois anos e nada foi definido, a situação afigura-se insustentável, e é o próprio Banco de Portugal, que falhou escandalosamente como entidade supervisora, que agora sugere ao Governo a brilhante solução: liquide-se o BPN, transfira-se depósitos e créditos para a CGD, e dispense-se os funcionários... Pode não ser verdade, mas ainda não foi desmentido. Por isso impõe-se a chamada de atenção e justifica-se a homenagem. Amanhã podemos estar todos no desemprego, mas orgulho-me de ter partilhado cada dia destes dois anos com todos estes colegas, que até ao fim hão-de provar que a expressão "valores que distinguem" é a marca distintiva da sua coragem e brio profissional. Bem hajam!

Raúl Ribeiro