Há uns séculos atrás o Américo Vespúcio desembarcou na América. O homem andava pior que estragado. Tinha um relatório de viagem para enviar ao rei, mas estava com um bloqueio de antropólogo. Do relatório de 30 páginas que desenrascou, há uma frase maravilhosa. ?Os nativos não têm alma porque urinam de pé. Chega-se ao Século XX e a Europa treme com a Revolução Cultural Americana. Acha-se que os Estados Unidos vão globalizar tudo, um mundo cheio de fords, hamburguers, e filmes sobre Casablanca, filmados num estúdio de Hollywood. Mas isso foi o Século XX. No seu jeito estúpido de ser, Vespúcio tinha razão: Para que se reconheça alma ao Outro, temos de encontrar nele valores que nos sejam comuns. Daí a Solidão das Culturas. As culturas são como um espermatezóide e um óvulo, não convivem, não saem para tomar café, ou vivem de costas voltadas, ou então fundem-se numa identidade terceira. ! A globalização do Século XX é um hamburguer: pica-se a carne e volta-se a juntála para que a textura não seja mole nem dura, não é doce nem salgado, o pão não sabe realmente a nada. É a criação de valores vazios, que facilmente penetrem em todas as realidades por igual. Mas estamos no Século XXI. ! O que a internet inventa é a comunicação (quase) sem intermediários. A cultura torna-se tribal e horizontal. Um miúdo de um bairro problemático americano junta-se' ao do bairro problemático português. Partilham valores, músicas, códigos. O miúdo do bairro português está culturalmente mais próximo do americano que do seu vizinho de classe média que vive no bairro ao lado. Desgraçado do Vespúcio que não lhe saía uma linha... isto no fundo... cada homem é uma cultura.
Filipe Ferraz, Músico e realizador