As recentes eleições brasileiras que levaram ao Poder a primeira mulher na História do Brasil, como república, trouxeram um facto novo, interessante, que nos leva a considerar e a pensar um pouco sobre a força que estão a ganhar os movimentos ecologistas e/ou ambientalistas, quando transpostos para as disputas político- partidárias. Não se trata de uma coisa nova por estes lados da Europa, onde os partidos verdes começaram a ganhar visibilidade nas ruas, nos protestos, por vezes folclóricos e menos correctos, em defesa de causas que se prendem com a sustentabilidade do planeta. Desde Maio de 1968 que os ambientalistas foram identificados com estereótipos que mais se casavam com os ‘hippies’ e os pacifistas, com os núcleos anarquistas completamente desalinhados dos protocolos e do cinzentismo dos gabinetes ministeriais ou de uma prática que é corrente identificar-se como politicamente correcto. A intervenção política dos verdes em Portugal chegou há cerca de duas décadas. Entraram na disputa eleitoral identificados com a esquerda, aderentes a um Partido Comunista muito colado à ortodoxia dos ídolos soviéticos que o inspirou. Uma colagem que, sabe-se, teve em vista ganhar lugar no parlamento. A verdadeira militância verde ou ambientalista, em nossa opinião, pouco terá a ver com essa percentagem mínima de deputados que chegou a São Bento. As eleições presidenciais brasileiras trouxeram para as primeiras páginas a figura simpática, talvez demasiado tímida, de Marina Silva. Uma dissidente do séquito de Lula da Silva, o Partido dos Trabalhadores (PT), onde se reuniu desde há alguns anos a enorme massa popular que levou Lula para Brasília. Marina deixou o PT em desacordo com a política vigente, com os olhos postos na defesa de uma Amazónia que todo o mundo conhece e que deve ser olhada com mais cuidado, já que se assume como um dos pulmões do mundo. E foi com esta visão que se apresentou contra dois candidatos fortíssimos, bem colocados nos seus lugares – aqui de esquerda e de direita. Foi neste patamar de centro, em que se levantou a candidata Marina, que os resultados surpreenderam, pois foi buscar 20 milhões de votos, cerca de 20% do eleitorado, que na segunda volta ‘recebeu’ carta branca para votar em quem quisesse. Marina optou pela neutralidade, pois os verdes não se identificam com a direita ou a esquerda, na maneira como são vistos os regimes hoje em dia, face às suas melhores ou piores atenções aos aspectos sociais ou economicistas da governação. Nestes dias deparei-me com uma entrevista de Daniel Cohn-Bendit, chefe da ala dos verdes no Parlamento Europeu. Judeu, naturalizado alemão, líder estudantil na Revolução de Maio de 1968, em Paris, onde era aluno na Sorbonne, Cohn-Bendit tem uma longa história de luta e de contestação ao politicamente correcto. Começou por alinhar na Federação Anarquista e a dada altura intitulava-se liberal-libertário. Comentava sobre a candidata Marina Silva que o discurso da antiga ministra de Lula que se candidatou ao lugar do chefe era o da regulação ecológica, mas que esse discurso deve ser entendido à luz das realidades do país e dos interesses que movem os ambientalistas brasileiros. Se é feito à esquerda ou à direita, isso tudo depende do contexto e do entendimento de cada povo. Acabou por dizer, bem à sua maneira, que na Europa ninguém entende a política brasileira… Os movimentos verdes têm agora uma oportunidade histórica, numa ocasião em que se pede aos cidadãos uma melhor cidadania, uma atitude pró-activa perante as ameaças, em que se pede a sua participação na luta pela sustentabilidade dos actos que constituem o seu dia-a-dia. Há algum desconforto dos partidos históricos e tradicionais em falar destas questões, mas a verdade é que os verdes movimentam-se hoje pelas boas práticas, com uma perspectiva que ultrapassa a ansiedade dos que procuram ganhar em percentagem os votos dos eleitores. É essa consciencialização que achamos interessante e que marca de certo modo um tempo novo. Há uma nova etapa na vida e presença dos verdes nas democracias modernas. Para além da retórica do discurso, agrada-nos os objectivos da luta, sejam eles centrados na Amazónia, nos incêndios que dizimam as florestas ou na identificação de melhores práticas que nos conduzam a um viver mais são e sustentável. Propósitos que devem ser bem explicados e ensinados, agora dentro de portas, longe das movimentações desordenadas dos jovens idealistas de há 40 anos, mas que na memória da História acabaram por marcar uma nova era que só agora se vislumbra com mais intensidade e responsabilidade.