Há mais de dez anos, deixei de colaborar regularmente com o Diário. Entendi então, que era para mim difícil manter uma relação aberta e franca com os leitores, pois acabara de aceitar o convite para Director Clínico do Centro Hospitalar do Funchal. Ao assumir esse cargo, o interesse superior da instituição hospitalar e a lealdade a que me sentia obrigado para com a Senhora Secretária Regional e o Presidente do Conselho de Administração, condicionavam não o meu pensamento, mas a sua expressão pública. As minhas razões passaram a ser partilhadas superiormente e os meus estados de alma, cúmplices discretos de uma amizade que se foi construindo no quotidiano de uma relação institucional. Deixou de haver espaço para comunicar, sem reservas, com os leitores do Diário. Hoje, ao olhar a memória desse tempo, revejo-me nessa decisão e voltaria a escrever aquela carta dirigida ao Director do Diário, a comunicar a suspensão da minha colaboração regular. Foi um sinal de respeito para com os leitores do Diário e uma afirmação clara, de que a lealdade é um traço de carácter que está para além da nossa vontade, das nossas razões ou estados de alma. A actual direcção convidou-me para voltar a colaborar com o Diário. Obviamente aceitei e cá estou de novo, mensalmente, na minha condição de médico …. mas não só! Não ocupando cargos de responsabilidade regional e sem qualquer compromisso prévio, estou em condições de recuperar a minha relação aberta e franca, com os leitores do Diário. Lembro como muito gratificante a experiencia que então vivi, quando, durante vários anos, escrevi regularmente para o Diário. Aprendi a não recear a exposição pública das minhas ideias e a aceitar o contraditório como uma atitude natural. Ouvi palavras lisonjeiras e agradáveis de leitores que faziam questão em manifestar a sua opinião sobre um artigo que eu escrevera. Palavras que compensavam aquele pequeno esforço que na maioria das vezes entrava pela noite dentro e que, devo confessar, também afagavam as minhas pequenas vaidades. Apesar de afastado fisicamente da Região por algum tempo, aqui em Lisboa, o Diário em papel, continua a fazer parte do meu pequeno-almoço. Acompanhei assim o seu trajecto dos últimos anos. Olho com respeito esse trajecto por vezes sobressaltado quando pretendem condicionar o seu destino, como se o tempo dos silêncios forçados ainda andasse à solta. Há neste meu pequeno e modesto contributo, um justo reconhecimento público por esse esforço quotidiano que o Diário faz para manter o seu espaço de informação e continuar presente no pequeno-almoço de muita gente. Sinto-me confortável por ser um dos muitos colaboradores deste Jornal. No último artigo que escrevi há mais de dez anos, ao cumprir o ritual da despedida, dizia a terminar ……… até breve! Hoje, cumprindo o ritual do regresso, sinto-me bem ao dizer ….. até daqui a um mês!
Manuel de Brito