
É incontornável não falar do Orçamento de Estado para 2011, que é hoje aprovado, na generalidade, na Assembleia da República. No debate de ontem falou-se mais de submarinos (no sentido concreto e metafórico), ficamos a saber que a responsabilidade pela avalanche de medidas extremas, austeras e impopulares impostas aos portugueses para compensar o défice de 500 milhões de euros não é de partido nenhum, e que este aparente empenho em debater medidas estigmatizantes que não fazem projecções sobre a reacção da economia, agravando a eito a vida das famílias como se fossem todas iguais e tivessem os mesmos encargos – aumento dos impostos, congelamento das pensões, corte nos salários – se resumem, afinal, a uma vontade expressa de cada partido vincar em acta o distanciamento face à proposta de Orçamento apresentada pelo governo. No que toca à redução da despesa pública, há um denominador comum: Todos compreendem que é preciso controlar gastos supérfluos mas ninguém se dispõe a indicar por onde começar o processo da 'desengorda'. É por isso que os mercados internacionais andam tão confusos em relação a Portugal: Ninguém quer beliscar o seu eleitorado e todos evitam beliscar-se e cair na realidade. Antes, não havia qualquer pudor de PS e PSD engordarem o défice. Aquilo eram cargos para administradores de empresas, de bancos e de institutos públicos, lugares para assessores de ministros e tachos para ex-ministros e ex-deputados como prémios por um mandato de quatro anos ou nem isso. Não havia embaraços ao aprovar e distribuir remunerações milionárias, reformas vitalícias, subvenções e subsídios que se sabiam insustentáveis para o país, hipotecando as gerações vindouras, sobre as quais pendia os juros da dívida pública. Agora, que é o tempo das leis da rolha, chega-se ao absurdo de, após a novela do impasse, ver o ministro Teixeira dos Santos a correr atrás o deputado Eduardo Catroga até à sua casa, depois de ter dado uma seca de quatro horas ao chefe das negociações do PSD. Tudo porque, segundo aludiu o ministro das Finanças, ontem no debate parlamentar, tinha vergonha de ser visto publicamente com o PS a negociar o Orçamento de Estado para 2011. De facto, no país das aparências não há pudor em esbanjar. O embaraço é poupar.