Os números são isso mesmo: matemática, estatística, exactidão. Por detrás de um número há, contudo, aquilo que se conta, que se vive, que se soma ou que se perde. E, neste contexto, os números fazem a diferença, não de uma forma isolada, mas ligados a uma essência de vida que os ultrapassa. 20 é, por exemplo, o número de anos em que muitas mulheres se deixaram ficar num quotidiano de violência, silêncio e esquecimento. 60 minutos e 57 litros de chuva é o que basta para inundar uma cidade, que por acaso é a nossa, aquela que percorremos todos os dias de sol ou de tempestade. 20 foi um dia de Fevereiro em que choveu 55 litros numa hora e que somou vítimas, destruição e terror. Mas, no reverso da moeda, 20 também foi o número de amigos e vizinhos que, este fm-de-semana, acertaram na chave do Euromilhões. 20 madeirenses das freguesias de Santo António e de São Roque, alguns afectados pelo temporal de 20 de Fevereiro, juntaram os números 9 - 28 - 36 - 41 - 49 e as estrelas 5 e 7 e somaram 44 milhões. Um Jackpot capaz de alterar uma vida que, dizem as notícias, se fazia e somava de algumas carências e outros tantos revezes da sorte e do azar. Os números, às vezes, também lhes dá para isso, para esse jogo de probabilidades que, de um instante a outro, alteram a realidade que seguia uma matemática incerta onde a vida não é coisa exacta ou pré-definida. Mas os números não se ficam por este jogo que cria excêntricos ou que ajuda a dar a volta à excentricidade de um azar ou de uma sorte. 120 mil, por exemplo, é o número de portugueses que vive com um ordenado abaixo do salário mínimo nacional. Que vive com 310 euros mensais. Dois números que nos deixam a pensar, um pelo excesso de uma pobreza que atinge muitos, e outro pela escassez que se desdobra em contas para chegar ao fim de um mês de 30 ou 31 dias. Os números somam os que pouco têm e os que não têm nada. Como é o caso das mais de 400 mil pessoas que beneficiaram, em Portugal, no ano de 2009, do Programa Comunitário de Ajuda Alimentar a Carenciados, que distribui excedentes da produção agrícola europeia através de instituições de solidariedade. E a estes números se poderiam juntar tantos outros agora em voga: o défice e o PIB, o desemprego e os cortes salariais, as perdas maiores que os lucros e todas as outras somas, divisões e subtracções que dizem o país que somos. E agora, para que as contas batam certo, apenas havia que somar a todos estes números a infinidade de histórias que eles escondem e revelam, na clareza dos números e na obscuridade que lançam sobre a aquele número particular e instrasmissível que é cada uma das pessoas que se soma nas estatísticas e nas notícias.