Numa descrição da ilha, José Luís Porfírio escreveu, há poucos anos, que "a Madeira é uma enorme montanha que fura o mar e parece furar o céu. Vista a partir de dentro, sucede o contrário: debruça-se e cai sobre o mar em sucessivos declives, ribanceiras e terraços". A descrição é eloquente, visual e aérea, como se este olhar voasse por cima e por dentro da terra. Em "Photomaton & Vox", Herberto Helder - que nasceu e conhece bem o lugar - explica que este efeito ocorre porque uma "paisagem é um ponto de vista". Nesta sua história, o prosador e poeta nascido na Madeira a 23 de Novembro de 1930 lembra um dos mitos cinematográficos do século XX e funda uma das suas perspectivas sobre a poesia: "Declaram que a melhor maneira de contemplar a natureza é de cima de uma bicicleta (disse-o Marilyn Monroe)." Com a arte, o caso é diferente: é indispensável uma "visão abissal - vertical - dos seus panoramas móveis, em todos os sentidos e direcções", ensina o poeta. Essa é uma leitura do lugar, aprendida na ilha onde "a água cai em cordões verticais, vivos, cantando". Falará Herberto de uma paisagem?, da arte? Sim, de uma estranha e bela maneira. De uma paisagem de papel, não de desenhos ou fotografias estáticos, mas de palavras, de um "território poético", da "geografia da dicção", em movimento. Como vê-la?, como aproximar-se dela?, pergunta-se. Para Herberto Helder, talvez a maneira mais "luminosa de escutar a poesia seja de helicóptero...". Ou uma qualquer, outra, máquina que voe. O vento? No espólio inédito de Sophia de Mello Breyner foi encontrada uma carta de Junho de 1962 de Herberto enviada a Sophia: "Nunca lhe contei? Uma tarde na ilha da Madeira, tinha eu a maravilhosa idade que já não sei, descobri numa livraria o seu livro "Poesia". E foi um dos mais belos encontros da minha vida. Não há aqui literatura. Tudo isto é verdadeiro. Seu muito admirador, Herberto Helder". Um dos textos em prosa de Sophia de Mello Breyner quase por acaso responde à carta de Herberto. É de 1972: "Eu pensava que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam por si mesmos, como que um elemento do natural, suspensos." E Sophia continua: "sei que o nascer do poema só é possível a partir daquela forma de ser, estar e viver que me torna sensível - como a película de um filme - por aquilo que em mim se inscreve". Matéria da vida, suspensa em palavras, inscrita em nós como se um filme; talvez seja essa a magia das palavras, que se revela na poesia; a arte de nos ensinar a ver o vento.

Diana Pimentel