Dando seguimento ao assunto que explorei no artigo do mês passado, não poderia continuar a falar de música, sem mencionar a técnica que revolucionou toda a indústria musical, bem quase toda... Estou a falar do “sampling”. Esta técnica deu a origem a estilos como o Hip Hop e está mais presente em muita da música que ouvimos do que se calhar a maioria das pessoas imagina. O que é que os Daft Punk, os Chemical Brothers, Fatboy Slim, Kanye West, Grandmaster Flash, Jennifer Lopez , Royksopp, St Germain, Lady Gaga (entre muitos muitos outros) têm em comum? Todos empregaram esta técnica, alguns deles exaustivamente, nos álbuns que ao longo dos anos têm editado. Mas então o que é isso de “sampling” ? Ora o “sampling” consiste basicamente em recortar uma determinada parte de uma música e voltar a cola-la num novo contexto. Esta amostra poderá ser tão pequena como o som de uma bateria ou mais longa como frases instrumentais ou vocais . Para se perceber melhor este processo vamos a exemplos : Os Snap, foram um dos projectos mais populares dos anos 90 dentro da música de dança, e num dos seus hits mais reconhecidos, o “The Power”, ouve-se vezes sem conta uma poderosa voz feminina ecoar a frase “I’ve got the power”, esta voz não foi uma vocalista contratada para interpretar esta pequena mensagem, é antes um pequeno excerto que os Snap “levaram emprestado” do disco “Love’s gonna get you” que a diva Jocelyn Brown editou em 1985. Só a título de curiosidade este sample não foi legalmente autorizado, ou seja, a Jocelyn Brown nunca recebeu crédito algum pela utilização do excerto do seu disco por parte dos Snap, e devido a isso recentemente recorreu aos tribunais afim de ser compensada por este “transtorno”. Outro exemplo bastante popular é o de Madonna que em 2005 usou o “chorus” instrumental do tema “Gimme! Gimme! Gimme! (a man after midnight)” dos ABBA, no tema “Hung Up”, este sample curiosamente foi autorizado pelos próprios ABBA excepcionalmente a Madonna (muito provávelmente por uma quantia exorbitante), algo nada característico nestes artistas, visto que (perdoe-me se estiver errado) nunca antes tinham autorizado oficialmente o uso de samples das suas músicas. Mas se pensa que o “sampling” é uma técnica usada exclusivamente na área da música de dança nas suas mais variadas vertentes, desengane-se , um dos temas de rock alternativo mais conhecidos do ultimo milénio, foi criado com base num excerto de uma outra composição. Estou a falar do tema “Bitter Sweet Symphony” dos The Verve. A banda quando estava a compor, usou um excerto de um album de versões orquestais de temas dos Rolling Stones dos anos 60, como melodia base, depois de os The Verve criarem a obra prima, os Rolling Stones não fizeram por menos e reclamaram 100% por royalties, ou seja, até hoje os The Verve nunca ganharam um cêntimo com o disco mais conhecido da banda, onde quer que o tema seja tocado ou interpretado, o dinheiro correspondente a execução pública da obra vai direitinho para os bolsos de Mick Jagger e companhia. Que pena. Como em todas as áreas técnicas da música existem aqueles artistas que estão uns furos acima dos demais, e na arte de samplar existem os que elevaram esta técnica a outro patamar. O “sampling” nem sempre tem que ser reconhecido, aliás muitos dos artistas até tentam disfarçar o uso de material alheio, mas nem sempre são bem sucedidos, estes artistas procuram discos raros, lados B de singles de doze polegadas, ou até discos gravados ao vivo, material que não seja conhecido do público em geral. Aqueles que, na minha opinão, são verdadeiros mestres nesta arte de corte e colagem são os franceses Daft Punk. É incrível poder ouvir não só o produto final, ou seja a música em si, mas também o que estes artistas fazem com os samples. Não é de estranhar que só 10 anos após a edição de “Discovery” é que se venham finalmente a descobrir alguns dos samples usados pela dupla, que não foram creditados no album. É o caso do conhecidíssimo “One more time”, toda a parte melódica do tema são minúsculos excertos recortados pacientemente de um disco bem raro de um artista não menos desconhecido: Eddie Johns do single “more spell on you”, comparando este disco onde os Daft Punk recortaram os excertos com o produto final, o “one more time”, o resultado é simplesmente de uma criativade abismal, muito dificilmente se consegue associar os dois discos. É um excelente trabalho destes franceses, são verdadeiros mestres nesta área e grandes músicos também. Há ainda o sampling de discursos, como o famoso “ I have a dream” proclamado por Martin Luther King, o anúncio do Presidente George W. Bush a alertar Saddam Hussein para abandonar o Iraque ou ainda as aulas de “fitness” em VHS de Jane Fonda sampladas por Bob Sinclar para o tema “Gym Tonic” de 1998. Há uma moda que infelizmente está a invadir o mercado que consiste em pegar em discos previamente samplados e re-edita-los como novas canções... confusos? Eu também, é o caso de um certo produtor “ Avinci” que resolveu fazer o mesmo que os Cassius tinham feito, e bem, no final dos anos 90, samplar o excerto de “All this love i’m giving” de Gwen McCrae em que se ouve “my feelings for you have always been real” e re-edita-lo como uma produção própria, ora isto seria o mesmo que pegar no tal sample dos Rolling Stones que os The Verve popularizaram no belíssimo “bitter sweet symphony”, acrescentar um ou outro efeito e edita-lo como se fosse algo inédito...bem isto pelo menos para mim não faz sentindo algum. Como se pode constatar o “sampling” não conhece barreiras e é uma das formas de arte que tem sido responsável pelo contínuo desenvolvimento de uma industria que as vezes carece de uma pitada de bom gosto. Poderão os leitores agora se perguntar qual a moralidade de determinado artista em pegar num excerto do trabalho de outro artista e adaptar a algo seu? Não é uma pergunta de fácil resposta, as opiniões divergem. Eu concordo com o “sampling” , acho que é uma arte que vive da criatividade e da capacidade de pesquisa de certos artistas, basta ouvir o álbum do Dj Shadow, o aclamado “Endtroducing” de 1996, foi construído quase inteiramente à base de samples de outros discos, e é por si só uma obra contemporânea de qualidade indiscutível, o que não concordo são quando artistas como o referido Avinci vêm re-editar em nome próprio discos que alguém já editou no passado . Bom gosto precisa-se. Tendo partilhado tudo isto, é curiosa a maneira como ouço música hoje em dia, não só tenho o meu radar de Dj. a funcionar (a ver se os discos vão funcionar na pista de dança ou não), tenho o meu lado de produtor (como construíram este som??) ou ainda a minha curiosidade em relação ao sampling (eu conheço isto de algum sitio!). Acho que mais importante que toda esta conversa, é ouvir boa música, e saber ouvir bons Dj’s que eles têm uma história para contar.
Michael C, DJ