Foi de mestre esta jogada de última hora do PSD em São Bento. Garantido o dinheirinho de Lisboa depois de tantos salamaleques na sequência do temporal de 20 de Fevereiro, o PSD-Madeira fez aprovar uma ‘pequena’ alteração ao Orçamento de Estado: deixa de haver total obrigação de canalizar aquelas verbas para a reconstrução. Que não, que é tudo mentira, que vai tudo para refazer casas e estradas, disse o chefe do Governo Regional. Acredita quem quiser. Eu não acredito. É evidente que em ano de eleições regionais, esse dinheiro vai ser empregue onde a máquina laranja decidir, embora talvez não tanto quanto pedia a proposta inicial do PSD. Esses valores serão essencialmente para a reconstrução, é claro! Mas não tenho dúvidas que algum desse montante também será gasto em infra-estruturas não prioritárias, no pagamento de horas extraordinárias para acabar à pressa obras que agora estão quase moribundas e noutras tentativas de agradar eleitores para manter a maioria. O mesmo que em outros anos, só que com mais dinheiro. É nisto que o PSD-Madeira é extremamente eficiente, na estratégia política, na visão partidária a longo prazo. E na ausência de pruridos em garantir os seus objectivos. O mesmo PSD que tanto elogiou o Governo de Sócrates no início deste ano, não teve pejo em votar ontem contra o Orçamento de Estado. Bem ou mal, a alteração à Lei de Meios foi conseguida e o resto é desvalorizado. Até pelo próprio PS nacional que lavou as mãos e apenas fez contas: o valor a transferir é o mesmo, façam dele o que quiserem! É como um pai pouco cuidado que dá a mesada ao filho sem pensar se é para pagar os lanches na escola ou comprar tabaco no bar da esquina. Desde que não gaste mais... A coerência, em política tem destas oscilações. Faz parte do jogo partidário. O que não se entende é a ingenuidade dos socialistas madeirenses. Quando Jardim falava em solidariedade, seguiram o líder regional. Agora, que percebem que foram enganados por Sócrates, assumem timidamente uma ruptura que chega tarde. Muito tarde. O problema de toda esta estratégia política é não ser colocada ao serviço da governação. A astúcia partidária está identificada e dá resultados claríssimos há mais de 30 anos. Pena que essa capacidade imaginativa não seja capaz de nos tirar do beco cada vez mais apertado em que a Madeira se encontra.