O presidente da Junta de Freguesia de Rio de Mouro, uma das mais populosas da linha de Sintra, decidiu não iluminar as ruas este Natal. Em vez disso, vai distribuir 250 cabazes aos seus fregueses mais necessitados. Não sei quem é o presidente da Junta, nem de que partido é. Isso, de facto, importa pouco. Mas quando li a citação solta na página de um jornal nacional esta semana, saí por segundos do efeito 'anestesiado pela crise', que está a afectar todo o país, independentemente do credo ou classe social. Apetecia-me fazer parte daquilo. Gostava que quem me governa me informasse que o meu Natal seria mais pobre, sem luz, sem doces, para tornar mais rico o de alguém. Alguém que desse cortes úteis, para variar.
Imbuída pelo espírito, encontrei, no mesmo dia,um senhor a pedir nas ruas de Lisboa e vi-o, de verdade. Todos os dias são imensos. Nos primeiros tempos na capital, ficava vidrada nas desgraças humanas com que me deparava todos os dias. Aprendi a ignorá-las como defesa e encará-las como parte da paisagem urbana. Mas nesse dia não. Estava parada num semáforo e o pedinte exibia um cartaz a dizer “tenho fome”. Aquela pobreza, sem disfarce, nua, evidente, fez-me olhar à volta. Não podia fechar os olhos. Chamei o homem para lhe dar alguma fruta que trazia comigo. Mas mal viu as maçãs, o 'pobre' disse que não queria e seguiu com o peditório para outro sítio. Alegou não ter dentes e nem esperou pelas bolachas e leite.
Fiquei, por momentos, sem reacção e segui em frente. Não me demoveu na vontade de ajudar, se puder. Não me abalou o espírito natalício, que deve existir todo o ano, mas que facilmente é esquecido ao longo dos meses. Reflecti e cheguei a duas conclusões rápidas. A solidariedade tem várias formas: Podemos ajudar apenas com a tolerância de abdicar de luzes e enfeites de Natal para algo maior. A pobreza maior nem sempre é aquela que aparece despida à nossa frente. Pior do que a que pede desenvergonhadamente nas ruas, sem necessidade, é a que está escondida na vergonha que impede estender a mão. Aquela que a austeridade não vê. A sem rosto, das frias e negras estatísticas.
P.S.: Não entro em demagogias. Sei que uma medida do género de Rio de Mouro nas ruas do Funchal, por exemplo, seria impensável, para uma Região que vive do turismo e não dos seus pobres. Não há dúvida de que esse é o motor da frágil e dependente economia madeirense e como tal não pode ser descurado. Mas acredito que um visitante, confrontado com a informação de que “este ano investimos menos aqui, para dar mais ali e matar a fome a não sei quantas pessoas”, sentir-se-ia parte de uma missão nobre. E já que estamos sempre tão preocupados com a nossa imagem externa, porque não investir numa campanha que promova o destino Madeira, como uma região que mima os outros, sem esquecer os seus.