Nesta altura parece quase impossível evitar a ajuda internacional a Portugal, depois da Irlanda são poucas as possibilidades de podermos escapar. No último artigo falei das várias explicações que o Prof. David Harvey elencou numa excelente palestra animada por um magnífico vídeo: a ganância humana, o falhanço das instituições e dos sistemas de regulação, a obsessão dos decisores pela teorias de mercado e finalmente o carácter dos povos. É interessante comparar esta explicação desapaixonada com as explicações que encontramos todos os dias nos media e nas conversas de circunstância. Para uns a culpa é dos governos, para outros a culpa é dos mercados. Se calhar a diferença está precisamente na visão desapaixonada de quem vê o problema de fora e não está na iminência da banca rota. Para Harvey, que não vive na União Europeia, muito menos na Grécia, na Irlanda ou em Portugal, problema é realmente mais simples de analisar. Os americanos têm outro tipo de preocupações, não estão no euro, não são governados pela Srª Merkel, nem pelo Sr. Cowen. Não têm que sentir que estão a pagar com o seu esforço os vícios dos PIGS, nem têm que acordar para a realidade que já não são um feroz tigre celta capaz de milagres económicos. A Europa parece estar dividida. De um lado os que sentem que são explorados e que não têm que sustentar os vícios dos novos ricos agora falidos. Do outro lado os que se julgaram membros de direito próprio de uma europa unida, forte e desenvolvida e que agora se sentem traídos. Mas não deixa de ser interessante que mesmo um dos maiores especialistas mundiais em teoria social não coloque diretamente os "mercados" como um dos potenciais culpados pela crise. Pelo contrário Harvey, que conhece bem a complexidade dos fenómenos sociais, sabe que todos os factores contribuíram para a crise. A verdade é que vivemos todos numa ilusão e agora estamos a acordar para uma dura realidade. Quanto maior o deslumbramento, maior a desilusão. Imagino como se devem sentir os irlandeses que adormeceram a pensar que eram um feroz tigre celta e agora acordaram como pobres gatos vadios a quem lhes deitaram uma balde de água fria em cima. Tenho para mim que quem aceita que a culpa de uma crise destas é dos governos ou dos mercados está acima de tudo em negação. E embora a rejeição faça parte de qualquer processo traumático, quando mais cedo passarmos à fase seguinte mais perto estaremos da solução. Os mercados que agora aparecem como culpados são precisamente os mesmos que nos financiaram o sonho nos últimos anos. Os governantes que agora odiamos são precisamente aqueles em quem acreditamos quando votamos livremente. Os mercados são tão culpados pelos nossos gastos insustentáveis como os governantes pelas ilusões que quisemos comprar através do voto. E pela minha parte já encontrei o verdadeiro culpado da crise - sou eu próprio! Sou culpado porque pensei que vivia num pais desenvolvido, que tinha direito a autoestradas fantásticas, TGVs, centros de saúde à porta de todos com direito a rendimento mínimo, salários, subsídios e reformas altas. Sou culpado porque achei que os professores tinham razão em não quererem ser avaliados e responsabilizados pela educação que absorve grande parte do orçamento. Sou culpado porque aceitei condescendentemente que os professores dos meus filhos faltassem às aulas ou não se sentissem responsáveis por quase nada do que acontece dentro da escola. Sou culpado porque acreditei que os enfermeiros e os médicos mereciam continuar a acumular ordenados e horas extraordinárias como se cada hora de trabalho deles fosse diferente da minha. Sou culpado porque não reclamei sempre que esperava horas nas urgências e nas consultas privadas como se me estivessem a fazer um favor. Sou culpado porque achei que os juízes e os advogados tinham direito a férias judiciais e não tinham responsabilidade nenhuma nos processos intermináveis que liquidam o funcionamento das empresas e das instituições. Sou culpado porque assisti a vaidades mediáticas de magistrados e advogados que discutiam processos e segredos nas televisões como se não fosse responsabilidade deles zelar por isso. Sou culpado porque pensei que vivia num pais que pode ter 15 universidades públicas e dezenas de escolas e institutos politécnicos. Sou culpado porque achei que tínhamos todo o direito a criar cursos sem nos sentirmos responsáveis pela sua qualidade e empregabilidade. Sou culpado porque apesar de considerar a promoção do mérito uma das principais soluções para a crise várias vezes não fui suficientemente firme na sua defesa e fui conivente com quem acha que está bem não fazer nada e que a culpa é sempre dos outros. Da minha parte resolvi passar da negação à ação, ontem quando assistia a dirigentes sindicais nas televisões a se regozijarem pela greve que promovem uma altura em que o pais precisa que todos trabalhem, decidi cancelar a minha inscrição no sindicado. Pela minha parte basta!
Nuno Nunes, Professor Universitário