
A Irlanda, aluno prodígio dos anos 90 na disciplina de crescimento económico e um dos três tristes tigres europeus, deixou de ter, como reza a canção da banda portuguesa, “o mundo aos seus pés” e ameaça arrastar no turbilhão da bancarrota outras economias frágeis, onde se alinham Portugal e Espanha.
O país dos gnomos esgotou a magia da ginástica financeira e, aos poucos, os magos de ontem são os vilões celtas de hoje: Bancos que descapitalizaram o Estado, dinheiro que migrou para offshores descalçando o PIB, especuladores, subornos e favorecimentos, todos contribuíram para apertar o pescoço aos irlandeses, forçados a assumir a pesada factura da dívida pública de mais de 540 mil milhões de euros.
Sem argumentos para evitar a ajuda externa, Dublin atirou a toalha ao chão e rendeu-se ao apoio do FMI, a exemplo do triste tigre grego, que já beneficiou de um empréstimo de 110 mil milhões de euros para sair da lama do défice até 2013, com juros pesados sabe Deus a que preço.
A diferença que nos separa da crise irlandesa é somente o volume da dívida. Mas serve-nos de consolo o facto de o défice português ser três vezes menor do que o da Irlanda? Na verdade, as medidas de austeridade que vimos anunciadas e que ainda quase nem sentimos o estaladão na pele, não foram invenção de Sócrates ou de Teixeira dos Santos. Se não vejamos...
Os trabalhadores irlandeses sofreram um corte de 12% nos salários. Perderam, tal como nós, prestações sociais, benefícios fiscais e tiveram de contribuir mais, pagando mais impostos. Só este ano, o país perdeu 150 mil jovens para a emigração. E desde 2008 que a harpa irlandesa vem intensificando o canto do cisne perante a eminente explosão da bolha do endividamento do sistema financeiro.
A resistência irlandesa durou dois anos. A de Portugal poderá durar pouco mais de dois meses, atendendo ao efeito de contágio. A exemplo da Grécia, esta crise celta custará mais de 14 mil milhões de euros aos portugueses. O princípio da solidariedade mútua entre os Estados-membros está a tramar-nos mais do que os 7% de juros sobre a dívida pública.
Não será difícil adivinhar que, sem dinheiro, teremos os bancos a exigirem o tutano para quem quiser um crédito para comprar seja o frigorífico, o carro, a casa ou as compras da semana. Um fosso semelhante àquele para o qual, mais tarde ou mais cedo, serão arrastados os países periféricos e as economias mais frágeis. Um pântano de areias movediças onde a corda de salvação só chega pelas mãos do FMI.
Isto para dizer que as palavras de ordem contra as medidas de austeridade que veremos hoje exibidas nos cartazes daquela que será certamente uma das mais duras manifestações para a greve geral em Portugal, não serão muito diferentes das inscrições que vimos nas tarjas que desfilaram pelas ruas de Dublin “make the rich pay” ou de Atenas “οι πλούσιοι να πληρώσουν την κρίση!” (“os ricos que paguem a crise!”).
Como se tudo isto não fosse suficientemente mau e confuso, na Madeira o governo alinha por uma incoerência com motivação eleitoralista: Empurra para a greve os trabalhadores onde quer ver terra queimada (na Administração Pública sob a alçada do Estado), e ameaça sanear “gente que perturba” nos sectores onde o governo pretende dar uma imagem da apregoada - mas já invisível - paz social, como é o caso do Hospital Central do Funchal.
Não se passasse isto na Madeira que, tal como revelam as previsões do Orçamento para 2011, terá um défice três vezes maior do que o Continente e quatro vezes superior à dos Açores. Não faltam, por isso, motivos para não fazer greve e exigir um maior controlo no despesismo desenfreado do governo regional. Penso que pior do que conhecer os dias difíceis do triste tigre português é nada saber sobre o nosso leão marinho gastão que não gosta de mergulhar sozinho.