José Côrte Anoiteceu. Amanhã será a lua azul deste Janeiro, mês de cava. A lua vem iluminando as últimas noites frias de Janeiro, não chove. Na venda do Bezugo, amparados do frio que lá fora sopra e corta, João Bronco, Manhoso Peludo, Rijinho e Manuel Coxo jogam à bisca, depois de um duro dia de trabalho de sol a sol na pedreira do sítio, numa das velhas mesas carunchosas de patas desniveladas pelo tempo. Cada qual encostou a sua enxada companheira a um canto da sala de jogo como é hábito nos dias que antecedem e sucedem à lua cheia, amanhã azul. Zé Francelho, homem com poios de fartar, entrou pela venda adentro empurrado pelo rabugento e frio vento que lá fora estrebuchava com tudo e todos. Os bisqueiros já sabiam o que ele aqui vinha fazer, e Zé Francelho também sabia porque eles ali estavam. Encostou-se ao balcão, olhou-os de longe, inspirou várias vezes ar morno para aquecer os pulmões e perguntou, Cavar à pota hoje e já a seguir, Sim senhor, as enxadas já estão aqui, respondeu Manuel Coxo como porta-voz dos quatro, A mesma paga como da outra vez, perguntou Zé Francelho para não haver dúvidas e seguindo as boas regras da negociação, Um litro de vinho para cada um por cada poio cavado à pota, Por cada poio ou cada corte, perguntou Zé Francelho para confirmar, Por cada poio, confirmou Manuel Coxo, Tenho hoje dois poios para cavar, Onde, Na Cova do Pico, Ipá, só pra chegar lá levo meia hora, disse Manuel Coxo, e todos riram, até o vendeiro, cenhoso por hábito, Acabamos esta partida e já lá vamos ter. Zé Francelho mandou engarrafar oito litros de vinho, levou quatro e os outros quatro fiacaram para os próximos serões da bisca. Meia hora depois, e sob a lua quase cheia, iniciaram a cava dos dois poios. Zé Francelho sentado e abrigado numa lapa à beira do primeiro poio sugeria, Batam lá uns torrões, O contrato foi cavar à pota, enterrar a enxada e puxar a terra para trás, lembrou Manuel Coxo, E nada de bater torrões, arrancar e limpar erva, cavar à pota é cavar à pota, avisou irritado Manhoso Peludo, o mais arisco e de mau feitio dos quatro. Depois deste aviso de Manhoso Peludo, Zé Francelho não mais falou nessa noite. Cavar à pota é isto, trabalho tosco e duro, de amassar músculos, quem vem atrás que se amanhe, como em outras mal habituadas coisas do homem. Amanhã à luz do dia alguém fará o trabalho mais refinado, limpar e arrancar as ervas ao bater os torrões, nivelar a terra, e tirar os regos. Em cerca de quatro horas de cava à pota, entre histórias e algumas anedotas mal contadas, o trabalho tosco ficou feito. Uma hora da madrugada estavam já os quatro nas suas palhinhas, a ressonar e a expelir bafo a vinho seco, nem tomaram banho, por essas alturas casas de banho como as de agora não havia e água quente muito menos. O último pensamento de Manhoso Peludo antes de adormecer foi, Quem vem atrás que se amanhe. Vem aí mais uma duro e longo dia de trabalho na pedreira. Quem vem atrás que se amanhe.