O estado não pediu autorização ao povo para organizar a cimeira da NATO nem para gastar avultadas somas na organização de um evento que junta senhores da guerra e fabricantes de armas e material bélico, mas acha-se no direito de ser ele a autorizar que um qualquer cidadão se manifeste contra ou, pura e simplesmente, deter qualquer um que se passeie em Lisboa com luvas e gorro pretos. Não bastando o incómodo que foi esta cimeira de ruas fechadas, trânsito condicionado e interferências nas comunicações sempre que Obama passa na sua máquina, os portugueses viram os seus impostos aplicados em seguranças absurdas na protecção de gente que ganha a vida vendendo armamento, mas que gasta os lucros para se proteger desse próprio armamento. Na passividade da Madeira, longe das passadeiras vermelhas dos deuses da paz podre, aprovou-se o orçamento da Assembleia Legislativa. Quinze milhões de euros despejados numa casa que foi chamada de loucos, onde são trocados insultos sempre que resolvem juntar os quarenta e tal invulneráveis à Lei de Incompatibilidades. Depois da redução de deputados, continua-se a gastar à grande e à francesa, com os partidos no regabofe do costume e "eleitos" a referirem-se à sua profissão não como deputados do parlamento regional, mas como economistas, advogados, empresários ou professores. Com direito a reintegração choruda quando deixarem o cargo político, como se despedidos fossem e com a vantagem de levarem dois ordenados por cada ano de trabalho. Depois vão, os do governo para empresas públicas ou com esse estatuto, os da oposição com a trouxa às costas para o trabalhinho do costume. Ainda há quem chame inveja a crítica ao facto do Estado estar a pagar reformas e ordenados ao mesmo tempo e à mesma pessoa. Seria caso para perguntar se nos recibos vinham dois descontos para a aposentação, um como detentor de cargo político e outro pela profissão da qual já se aposentou. Eu acho que é crime o contribuinte pagar duas subvenções ao mesmo "artista". Não tenho problema nenhum com quem ganha muito desde que o meu não me falte, acho é obsceno que se peçam sacrifícios ao povo pobre e remediado e quem pede esses sacrifícios continua a vida como se nada fosse, como se tirar 10% no ordenado e reduzir as deduções ao IRS daqueles que trabalham mais de oito horas por dia nada fosse. Todos têm o direito de se arranjar como podem, mas a partir do momento em que o fazem com o dinheiro dos meus impostos, já tenho algo a ver com isso. E não posso admitir que se governe tão mal e para os amigos à custa de redução da eliminação do abono de família, da acção social, das bolsas de estudo. Se tinham que efectuar cortes, virem-se para as empresas públicas onde os gestores perdem metade do dia a tentar descobrir onde gastar o imenso dinheiro que ganham. Virem-se para as falcatruas nos bancos e vão buscar os administradores que hoje estão aqui e acolá a gozar rendimentos ilícitos e com contas em ilhas com nomes esquisitos. E acima de tudo invistam na fiscalização e prevenção, porque depois da fuga é preciso correr para apanhá-los. E estes senhores não gostam de esforço.
Paulo Gomes