
Quando era criança, preocupava-me o conceito de Céu e o que teria de fazer durante a minha vida para ter direito a um lugar lá em cima, naquele lugar idílico onde os dias têm sempre céu azul e as flores estão sempre no seu expoente máximo de cor e aroma.
Mas com o passar dos anos vêm outras preocupações e outras formas de ver a vida. Os pecados mortais são confundidos com os veniais e os ensinamentos da catequese de outros tempos deixam de fazer algum sentido perante a realidade que nos rodeia. Esquecem-se as orações decoradas e repetidas sem qualquer sentimento e as idas ao confessionário, obrigatórias em três ocasiões do ano e devidamente controladas pelas irmãs do Colégio, passam a pertencer a um passado distante.
Na idade adulta, a Fé deixa de ter hora e lugar marcado. Passa a ser uma questão de acreditar ou não acreditar. De confiar numa entidade ou ser divino que nos acompanha de algum modo, ou que nos abandona em determinadas alturas. E quanto mais sabemos, quanto mais aprendemos com a vida, quanto mais somos obrigados a enfrentar, mais difícil se tornar acreditar e confiar.
A Fé é algo de estranho. Algo que consegue mover montanhas e milhões de pessoas, para o bem ou para o mal. Vemos os extremistas islâmicos a se suicidarem à espera de encontrar 72 virgens no paraíso. Vemos os hindus a passarem fome. Vemos os cristãos a se auto-flagelarem para se tornarem mais puros.
Desde sempre se matou em nome das crenças. Desde que se começou a falar de deuses… Na antiguidade havia os sacrifícios, as crucificações, os ritos que envolviam sangues e oferendas de virgens ao fogo. Depois vieram as cruzadas, as colonizações, as imposições de que “o meu Deus é melhor que o teu”.
Agora, as regras nas crenças são mais sofisticadas, os pecados são outros. O amor é visto com bons olhos, mas apenas dentro de um casamento e esse casamento só pode ser aceite se for entre pessoas de sexo diferente. As relações sexuais só podem ser aceites dentro desses casamentos e qualquer contraceptivo é visto como anti-natura e por isso perfeitamente proibido.
Foi por regras como estas que muitas pessoas acabaram por se afastar da Igreja enquanto instituição, porque os tempos mudaram, as mentalidades também, mas a Igreja manteve-se enclausurada na sua própria torre de narciso. É por isso que quando o actual papa, Bento XVI, admitiu o uso do preservativo, mesmo que seja para a prevenção da transmissão do vírus da Sida, milhões e milhões de pessoas, tal como eu, aplaudiram em silêncio. Demoraram mais de trinta anos, mas finalmente parece existir uma luz ao fundo do túnel, até porque, tal como a Fé, a Igreja também se deve renovar, deve se adaptar aos tempos e encontrar novas formas de chegar às pessoas e, acima de tudo, fazer com que ninguém perca a esperança.
Afinal, como me disse aqui há uns anos um frade franciscano do Seminário da Luz, em Lisboa, o único dogma verdadeiro é o da Vida. O resto é secundário.