Esta afirmação vem a propósito da Jornada Diocesana do Apostolado dos Leigos que se reuniu sob o lema "Repensar Juntos a Acção Pastoral da Igreja". Trata-se de uma iniciativa que tenta equacionar, de outro modo, a percepção dos "sinais de Deus" na opacidade do mundo actual e a abertura aos "sinais dos tempos" no quotidiano, dentro e fora do espaço eclesial. Sabemos que o mundo de hoje (a pós-modernidade) tende para uma outra forma de organização do campo religioso, embora com um certo recuo da religião institucional. Este facto não traduz necessariamente uma erosão da religião em si, mas a "recomposição" do campo religioso, com a coexistência de diferentes confissões, a pluralidade de expressões de religiosidade, a diluição da presença institucional da Igreja na organização do quotidiano das pessoas, a maior distância das pessoas em relação aos modelos propostos pela Igreja e pelo fim do monopólio de interpretação e de atribuição de sentido à existência. Esta realidade conduz, muitas vezes, a uma certa anemia espiritual que vai no sentido da constituição de fracas identidades e de frágeis identificações e onde permanece a necessidade de dar resposta aos problemas fundamentais da existência humana. Neste contexto, é indispensável a contemporaneidade da proposta religiosa com o tempo (contemporaneidade com o tempo mas não adequação ao tempo), numa leitura exigente da realidade, evitando desfasamentos culturais inúteis, com a ousadia de propor aquilo em que se acredita. Torna-se, assim, tão relevante que a Igreja desafie todos a pensar de novo, sob um ângulo distinto, com uma outra aproximação aquilo que a própria Igreja é chamada a dizer e a fazer. Apontar uma "nova maneira de ser Igreja" nos tempos de hoje. É grande e urgente o desafio que passa necessariamente por uma vivência da fé cristã sob novos parâmetros: de uma fé de saber a uma fé de experiência; de uma fé monolítica a uma fé de estruturação plural; de uma fé de afirmações a uma fé assente na confiança; de uma fé de obediência a uma fé de compreensão; de uma fé indiferenciada a uma fé hierarquizada; de uma fé sectorizada a uma fé como atitude global de vida. A Igreja vive sob o desafio da credibilidade, no sentido da transparência e da autoridade do testemunho e das testemunhas e da disponibilidade para a renovação, em busca da fidelidade ao Evangelho, que não é mais do que colocar-se ao serviço da humanidade do homem à luz de Deus. Que outras entidades e instituições tenham também, nestes tempos de crise e de individualismo, a coragem para dar este primeiro passo: "repensar" em conjunto. Vamos todos "repensar juntos" o presente para não hipotecarmos o futuro.
Marco Gomes, Director pedagógico da APEL