O beijo, o cão e a baleia

Aí está o fim-de-semana, a Cimeira da Nato e outras representações deste quotidiano que soma dias para o Natal. Enquanto isso, e apesar de todas as previsões em contrário, o mundo gira, pula e avança, talvez não como a bola colorida de António Gedeão, mas, ainda assim, a cumprir os movimentos da física, de acordo com o previsível na imprevisibilidade destes tempos em que a crise domina quase tudo. E digo quase tudo, porque, no intervalo da agonia e da angústia, os retratos de vida do país e da Região oscilam entre aquele momento de quase esquecimento e aquele outro de lembrança nítida de que a apregoada crise não é monocromática. Muito pelo contrário! Que de outra forma se poderia explicar a derrapagem de nove milhões no Museu da Baleia, no Caniçal. A obra que começou com um orçamento de 1.6 milhões, mas que já cresceu sete vezes mais. Apesar de meter baleias, entre esta e a outra história, que é parábola, existem diferenças. O Jonas bíblico foi engolido pela baleia, mas, desta vez, parece que quererem convencer o Jonas a engolir a baleia. Esta e todas as outras que, juntamente com alguns elefantes brancos e outras bestialidades, tornam difícil de entender os conceitos de austeridade, poupança e sacrifício. É que, ao contrário do que nos querem fazer crer, a poupança corre sempre para o mesmo lado, como os rios que desaguam, invariavelmente, no mar. Valha-nos que, neste reino animal, o cão de Obama é português. E que o presidente americano até elogia o Portugal austero. Mas é claro que Obama ignora as parábolas das nossas baleias. O homem mais poderoso do mundo, tal como as baleias, cruza oceanos, fecha a segunda circular, impede a navegação no ‘Vasco da Gama’ ao fim-de-semana, enfurece os lojistas do centro comercial com nome de navegador, fecha fronteiras, pousa para a fotografia, e volta a cruzar o oceano em trajectória inversa ou em trajectória semelhante às naus de outros tempos e de outros ‘portugais’. Este fim-de-semana, Portugal volta a ser grande. O Portugal da Cimeira, dos carros pretos em ruas que se fecham, dos elogios de circunstância, das importâncias que nos ultrapassam. Mas, na segunda-feira, ficamos outra vez a sós com as nossas baleias. A sós com o nosso destino. E, passados alguns dias, já ninguém se recordará da Cimeira que começou com um beijo fora do protocolo e discutiu a segurança do Mundo.