"E uma vontade de rir nasce do fundo do ser. E uma vontade de ir, correr o mundo e partir, a vida é sempre a perder..."
"O Homem do Leme"
- Xutos e Pontapés
Um dia destes dei comigo a tentar cantar "O Homem do Leme", um dos sucessos dos Xutos & Pontapés de que extraí os versos em cima. Confesso que foi uma daquelas canções que me ficou na cabeça um dia inteiro, a matracar, a repetir até cansar, como um recado da consciência a me alertar para qualquer coisa. Descobri ao fim do dia que era o meu subconsciente a rir-se que nem um perdido da justificação do presidente do Governo Regional para o facto de não fazer greve. Recordam-se os mais atentos que Jardim disse esta semana que não faria greve no dia 24 porque alguém tem de ficar ao leme. Para ser justo, tenho de admitir que dei uma sonora gargalhada ao colega que me deu essa informação acabadinha de chegar à Redacção. Foi expontâneo, nem teve nada de provocatório. A provocação, se assim se pode considerar, veio a seguir. E escrevo-a agora: como é que alguém que quer ser levado a sério pode dizer que não vai trabalhar um dia porque tem de ficar a zelar pelo governo quando tem passado semanas e semanas fora da Madeira? Essa questão leva-me a pensar que foi uma brincadeira. Se foi, teve piada. O problema é que esse desabafo leva-nos a reflectir sobre esta questão de uma forma mais profunda. Onde tem andado, afinal, o nosso homem do leme nos últimos anos? Que ideia positivamente invulgar tiveram os últimos governos de Jardim? É justo reconhecer as infra-estruturas de qualidade, mas não as podemos dissociar do endividamento a que isso nos obriga e da inutilidade de algumas delas. É preciso admitir a jogada de mestre de Jardim quando, em 2007, decidiu deitar o governo a baixo para anular promessas que não podia cumprir e para ficar mais uns anos no governo. Também é impossível não aceitar a boa estratégia política de 'engolir' a reconciliação com Lisboa, forçada pela tempestade de 20 de Fevereiro. E, tirando essas jogadas políticas que folgaram o PSD-Madeira, que tem feito o nosso 'homem do leme' de tão extraordinário assim? Não falo de betão nem de alcatrão mas de medidas de fundo. Que programa de desenvolvimento seguimos? Que é feito da Singapura do Atlântico? Da exportação de inteligência? Já se sabe que Jardim não vai fazer greve dia 24, mas parece que fez gazeta muitos dias antes. Que tirou dias à conta ou, como se diz na Função Pública, que meteu artigos para descontar nas greves. É que esta forma de governar consoante as ondas, junto à costa e de navegação à vista já deu o que tinha a dar. Falta imaginação, criatividade. Falta um abanão. Atenção que nem me atrevo a pedir mudança política de fundo, com outros partidos e outros governantes. Sugiro apenas um pouco mais de audácia, de atrevimento, de inovação. Algo que vá para além da reconhecida capacidade das engenharias financeiras para protelar dívidas e fazer coincidir obras com eleições. Volto a lembrar-me do 'homem do leme'. E, involuntariamente, estou outra vez a cantarolar o refrão: "E uma vontade de rir nasce do fundo do ser. E uma vontade de ir, correr o mundo e partir, a vida é sempre a perder..."