Para o mal e para bem, quase na mesma proporção entre feitos e falhanços, tudo o que aconteceu na governação deste País, desde que saiu das trevas da ditadura e aprendeu o que era democracia, é da responsabilidade de dois partidos: PS e PSD. Com ligeiras excepções pontuais do CDS que se introduziu na esfera do poder por duas vezes, sempre debaixo da tutela laranja, foram socialistas e social-democratas que deram o corpo ao manifesto - sem nenhum sacrifício, sublinhe-se - pelo comando de uma Nação que deve ser das mais derrotistas do mundo. Governaram (governam) um País que, contra a sua própria vontade, conseguiu entrar na primeira divisão do desenvolvimento, embora faça tudo para se minimizar e até comparar com concorrentes mais desfavorecidos. Mas somos assim, depois de cinco décadas de uma ditadura mistura de opressão policial com lavagem de cérebro religiosa, perdemos a arrogância saudável que ajuda a crescer. Mas adiante. Assim, foi com normalidade que PS e PSD chegaram a acordo para viabilizar um orçamento de Estado que os primeiros sabem que será sinónimo da sua derrota eleitoral e os segundos acreditam ser uma forma de ganhar tempo, até terem de trocar de gabinetes com a equipa de Sócrates. O acordo era natural, esperado e só visões suicidas e irresponsáveis poderiam aspirar a outra coisa. Só um maluco poderia acreditar que Portugal sobreviveria, em termos económicos, à ausência de orçamento, a uma gestão de duodécimos que levaria ao incumprimento imediato da redução do défice. Seria bonito, sim senhor. Socialistas e social-democratas cumpriram a sua obrigação. Mal, ou bem, chegaram a acordo. Infelizmente, os outros também cumpriram o que se esperava deles. Com a certeza de que haveria orçamento, mesmo depois do susto que Passos Coelho pregou, os partidos mais pequenos apressaram-se a bradar contra as medidas de austeridade - uma violência, sem dúvida - e a garantir que irão votar contra. Um não, gritado a plenos pulmões, mas escudado na confiança de que os partidos grandes vão fazer o seu trabalho. É fácil dizer que não se deveria apertar nos impostos, cortar nos salários da função pública, reduzir nos abonos de família e que o Estado deve é acabar com as mordomias dos políticos e pôr os ministros a andar de autocarro e os deputados a ganhar o salário mínimo. O Povo ouve e até gosta e nem se importa que esses 'cortes' sejam insignificantes e que quem lhe diz que está do seu lado não apresente soluções para acertar as contas públicas. Sobretudo, que quem grita de alto que já sabia que haveria acordo, só tenha medo de uma coisa: que algum dos 'grandes' o desafie a ser poder e a ter de estar do outro lado. No grupo dos que têm de ser responsáveis e, mal ou bem, tomar decisões. Se conseguir provar que não é analfabeto, o palhaço Tiririca será deputado federal no Brasil, eleito por mais de um milhão de paulistas. Por cá, não teria de fazer prova escrita, bastava dizer que era contra qualquer coisa e convencer o Povo de que 'pior do que está não fica'. Sobretudo porque nunca teria de assumir responsabilidades.