A situação económico/ financeira actual do país mais não é do que a evolução lógica duma questão cultural subjacente aos comportamentos dos cidadãos, a todos os níveis, desde os mais desafortunados aos dirigentes de topo do país. Excluindo as situações escabrosas que têm dado brado na comunicação social, praticamente ninguém acha mal que se roube o estado. Esta é de resto uma atitude atávica, quase natural, o que explica que na generalidade das vezes nem sequer se assuma aliás, se esteja a roubar. Perante tais circunstâncias, o comum é ouvir-se - Fulano foi esperto, conseguiu uma invalidez para a mulher ou então - José (motorista), ponha os meninos na escola e depois leve a minha mulher a casa da mãe. Só preciso de si ao meio-dia - Vê se não te esqueces outra vez de fazer as fotocópias no serviço…, vou-me ver se me "baldo" 20 minutos antes.

Na sua maioria, são coisas pequenas, comezinhas, para arranjo de vida… são coisas aceites socialmente porque … se pode, aproveite… Num nível intermédio, situa-se aquela casita de função, um lugarzinho naquela escola específica, um empreguito para o rapaz que acabou…, etc. A mesma lógica aplica-se do mesmo modo a outro nível, o dos poderosos. Aí a parada sobe, já não estão em causa amendoins mas, aquele ajuste directo, aquela concessão por 50 anos, aquele lugarzito para o Zé, no conselho de administração.

A Res é publica. Sendo de todos não é especificamente de ninguém, não tem um dono que a defenda, que venha reclamar. De uma forma ou doutra, com fatia ou migalha, acaba sempre por dar para todos. Em cada acto eleitoral há que subir a parada das promessas, há que saciar acólitos e clientes numa espiral viciosa, qual fogueira que cresceu até esgotar o combustível que a mantinha. Quando se esgotou o combustível, começa-se a comprar fiado, deixando o ónus do pagamento para filhos, netos e bisnetos porque os consumos imediatos têm de ser satisfeitos e quem sair por último, que feche a porta.

Do duelo a que, actualmente, se assiste, está alheio o interesse público. Cada um dos dois títeres em presença tem como principal preocupação, "salvar a face", culpar o outro do descalabro das contas públicas, para assim poder evitar maiores perdas nas eleições que se anunciam.

Neste momento o mais importante é apagar a fogueira. Saber a origem da lenha ou quem a acendeu é igualmente importante, mas não é prioritário.

Pode-se afirmar com 100% de certeza, que entre os dois, sós ou acompanhados, ora um, ora outro, ora os dois, reside a responsabilidade pelo processo que conduziu à situação actual. Para se caracterizar melhor a situação, convém colocar algumas questões do tipo: onde estão e como foram utilizados os biliões da Europa? Com que retorno? Quem começou o endividamento externo? Quem vendeu parcelas de soberania, quem trocou a agricultura, indústria e pescas, por um prato de lentilhas? Quem deu de barato as empresas públicas, quem contratualizou de modo a ficar bem para todos menos para o contribuinte. Quem hipotecou o erário público com despesas faraónicas de utilidade duvidosa?

A acrescentar a estas dúvidas, há, ainda que, acrescentar a existência de alguns protagonistas que, incapazes de lisura, de limpidez e transparência e que em todos os processos em que se envolveram, dão sempre lugar a dúvidas, suspeições, meias-verdades, que andam entre as gotas da chuva conseguindo aparentemente não se molhar, seguros de que serão salvos no limite pelo árbitro que não assinalará o pénalti.

Esta gente sai impune. O pior que lhes pode acontecer é não ganhar as próximas eleições, porque ninguém vai preso por má gestão ou hipoteca da coisa pública. A memória dos eleitores é curta e sempre vale mais uma boa promessa do que uma má certeza.

Esta 3ª república está esgotada, aparentemente não tem solução, nem no governo, nem na oposição, não tem homens de estado como Sá Carneiro, Salgado Zenha ou Amaro da Costa, sem falar de outros ainda vivos mas já retirados. Afigura-se-me que, na conjuntura actual, mesmo que "se baralhe e volte a dar" tudo o que vier, será mais do mesmo…

No meu entender as soluções tem de passar em primeiro lugar pela mudança mais difícil que é a de mentalidades. Sem haver modelos perfeitos, parece, todavia aceitável ir buscar inspiração a outros povos e outras sociedades com estas situações melhor resolvidas.

Com o 25 de Abril, faliu o regime autoritário que então existia e sobre as suas cinzas nasceu e cresceu, viveu e floresceu um vazio de quase tudo: de autoridade, de respeito, de educação, de decência, de mérito, de cidadania. Esse vazio foi gradual e paulatinamente preenchido por facilitismo, falta de rigor, falta de palavra, má educação, esperteza, aparência, etc. Esta situação que levou 35 anos a instalar-se e a consolidar-se vai demorar muito mais a desaparecer, pois um pai ou um educador que tenha agora 35/40 anos, corre o risco de já ter sido educado nestas premissas e, se tal aconteceu, tendencialmente reproduzirá o modelo.

Alterar esta situação só é possível através da educação, começando hoje, aqui e agora, para que algum dia sejamos diferentes. A educação teria de ser assumida como um desígnio nacional, de ser suportada por um consenso alargado, com objectivos precisos definidos de âmbito geracional, para que cada novo ministro não os alterasse em substância. Teria de haver coragem e determinação pois a sua aplicação por certo não seria prazenteira e iria afrontar a cultura vigente e interesses corporativos. Infelizmente não vejo muita gente interessada em o fazer. Mas a esperança, diz o povo, é a última a morrer…

Doutro modo e parafraseando um grande amigo, seremos um povo que "passou da barbárie para a decadência sem passar pela civilização".

Hélder Melim