Há qualquer coisa na essência do ser português que se reflecte em tudo o que se faz em Portugal. E essa coisa - chamemos-lhe assim - está de tal modo enraizada em nós que já nem damos por ela. Faz parte do dia a dia, acorda connosco, senta-se connosco à mesa, conversa connosco, trabalha connosco, diverte-se connosco, morre connosco e, cúmulo dos cúmulos, até dirige os nossos destinos, individuais e colectivos. É verdade, acreditem em mim, está lá, algures na governação portuguesa. Espreita sorrateiramente, como quem não quer nada, e congemina com vagar e precisão as medidas que vão sendo tomadas em suposto benefício da Nação e de todos nós. É coisa reles que, como coisa reles que é, quando alcança o poder, se metamorfoseia em princípio imperioso, incontornável. Ora, esta coisa de que vos falo faz os governos espremer q. b. a classe média portuguesa, apertando-lhe o cerco, apertando-lhe o cinto até deixá-la moribunda. Não quer matá-la, isso não, quer apenas sangrá-la ao limite, extorquir-lhe a seiva. Porque, à boa maneira portuguesa, ela merece. E merece porque se atreve a querer para si o que só cabe, por direito, aos grandes e, por misericórdia, aos mais pequenos. Não cabe ao homem trabalhador aspirar àquilo que apenas ao Estado compete dar na devida proporção. Por isso, assistimos ao que assistimos: uns, muitas vezes de brinco à orelha e chinelo de praia, com casa paga e rendimento mínimo para as cervejas do dia; outros, de Kiton no corpo e Cartier no pulso, com lucros a mais e impostos a menos. Os que estão no meio, na terra de ninguém, é que têm o que merecem. Nem são carne nem peixe. Ou melhor, são carne para canhão. Pertençam ao sector público ou privado. Aqui não há titios… Querem filhos? Tenham-nos, mas sem abono que isso é para quem precisa! Querem-nos na escola com a educação básica a quem têm direito? Tenham-nos, mas paguem os manuais porque a Acção Social não chega para todos! Querem-nos na universidade? Tenham-nos, mas sem bolsa de estudo que isso é para quem está no limiar da pobreza! Querem casa própria com condições? Tenham-na, mas com o IMI à altura que isto de querer viver bem não é para qualquer um! Querem ordenado? Tenham-no, mas passem mais de um terço para o Estado que as coisas não estão fáceis para ninguém! Querem bens e serviços de qualidade? Tenham-nos, mas pagando ao Estado essas veleidades que isto de ser remediado e querer dinamizar a economia tem os seus quês!... E os desgraçados da terra de ninguém não têm senão de pagar, pagar, pagar… Porque a coisa leva sempre a melhor, a coisa a que o governo chama de "austeridade", mas à qual a minha avó, com a sua sabedoria iletrada, dava outro nome - inveja.

Eker Sommer