
Vivemos num mundo à parte. Num mundo onde se podem insultar jornalistas e sair impune, num mundo onde se escrevem e dizem barbaridades que ficam sem resposta, num mundo em que se mantêm órgãos de comunicação que tentam manipular a informação e moldar as mentes dos mais fracos, num mundo onde um jornalista é agredido e acaba por ser ele o agressor e não a vítima. Viver neste mundo à parte não é fácil. O escrutínio é constante. Se dizemos A é porque fomos comprados por B ou ameaçados por C. Temos de dizer X porque senão perdemos a ligação com a fonte Y e ganhamos inimigos no órgão Z que tem poder lá para os lados das Angústias. Para viver neste mundo à parte não podemos ter uma coluna vertebral completa, com ossos, nervos, cartilagem e vasos sanguíneos, porque haverá quem tente quebrá-la e corremos o risco de ficarmos parecidos com o corcunda de Notre Dame. Neste mundo sobrevivem as colunas gelatinosas, moldáveis como plasticina ao sabor do vento do poder ou do dinheiro, sobrevivem os fracos de espírito e de carácter, os que se calam perante as injustiças, os que não ouvem o que não lhes convém, os que se esquecem de quem já precisaram ou não pensam que precisarão no futuro. Neste mundo à parte temos de fazer ouvidos de mercador a palavreado que nada tem de correcto ou educado, temos de enfrentar ameaças e engolir o receio para informar aqueles que de outra maneira nunca saberiam a verdade, temos de fazer das tripas coração para cumprir aquilo a que nos propusemos um dia em prol da informação. Mas neste mundo à parte, que tem pouco de pérola preciosa, ainda há um punhado de pessoas que não tem medo de mergulhar mais fundo para descobrir as caixas de Pandora, um punhado de pessoas que não se deixam amordaçar em prol de interesses que não os melhores. São os esses os insultados, perseguidos, ameaçados, criticados, rotulados disto ou daquilo… Sem dúvida que seria mais fácil baixar os braços e deixar-se levar pela corrente. Mas há sempre algo que nos faz pensar o contrário e querer continuar. Afinal, se a Nobel da Paz birmanesa Aung San Suu Kyi, libertada no sábado pela junta militar da Birmânia depois de sete anos consecutivos em prisão domiciliária, não esperou muito para afirmar que vai continuar a lutar pela democracia no seu país, não vejo razão para que também neste mundo à parte, mais cedo ou mais tarde, o medo deixe de controlar palavras, actos e omissões, e a verdade, a justiça e a democracia venham finalmente ao de cima.