Nisto de emoções os actores não são mais fortes que ninguém. Quando Mário Gouveia, Jornalista, em Fevereiro do nosso descontentamento, perguntou a Alberto João Jardim (estou a citar de cabeça) o que lhe ia na alma; Jardim disse, após uma pausa breve, uma pausa grávida: sobre isso não lhe falo. No antes e no depois da sua fala disse tudo sobre a sua alma, não quis nem precisou de falar muito. Nos tempos da sua resposta quase rebentava em lágrimas. Qualquer um de nós, que não seja bronco, emocionou-se com o que lhe ia na alma e percebeu quão tocado estava Jardim. Não havia ali música de fundo e ficámos vergados, como com Guida Vieira, que entrevistada por Nicolau Fernandes e Marta Caires, referiu o dia em que soube qual seria o valor da sua pensão como maior humilhação da sua vida. Sim, estou a falar de emoções, mantas e cortes de emoções. Vira, a água muda-se para outra manta (como é bom regar uma fazenda); é impossível ficar indiferente ao programa Em Reportagem da RTPM, lembro um, Caminho para a Solidão, do Jornalista João Carramanho, só para homenagear, Ernesto de Abreu, aquele avô no Hospital dos Marmeleiros e que fez inchar as órbitas de muitos quando o vimos referir-se ao neto mais moço, às pataquinhas que lhe dá, aos beijos que dele leva e às lágrimas que lhe vêm pelos olhos... É, vira, sem isto de emoções, estava-me nas tintas para os Políticos, os Operários, os Jornalistas, os Empresários e os Mercados (os que têm flores e peixes). Não, nao me estou nas tintas. Sem isto, de se arrepiar, seria indiferente ao que me contam os contos de Viale Moutinho, aos Íbis Vermelhos da Guiana de Helena Marques, ao Boi de Ernesto Leal, à Velhice do Padre Eterno de Guerra Junqueiro, ao Príncipe com Orelhas de Burro de José Régio e ao som de Ravel em Pavana Para Uma Criança Defunta. Vira, há pessoas que morrem, como uma vaca, como um boi (lembro-me de algo dito nas Troianas de Satre) e os que morrem como cães, abandonados primeiro e espezinhados depois num choque rápido e eficaz na via rápida. Vira, a água está quase a acabar e ainda falta um corte! Vira, não despeses a água nessa manta! Vira, e na levada corre leite achocolatado.

Élvio Camacho, Actor