O presidente de um clube de futebol agride um jornalista, porque convive mal com a liberdade de imprensa. Um médico compara o hospital a um bordel, porque entende que o direito à greve é discutir na rua coisas que deveriam ser discutidas dentro de casa. Um hospital recusa uma avaliação prevista na lei e à qual se sujeitam todas as outras instituições congêneres, impedindo assim que jovens continuem a sua formação como médicos na terra que os viu nascer e à qual escolheram regressar. Tudo isto acontece num mesmo sitio, numa mesma semana e, pasme-se, quase sem qualquer consequência, sem resposta e sem explicação, que não seja a habitual estratégia de fugir à questão, atirar areia para os olhos e inverter o bico ao prego. Infelizmente, esta não é excepção, mas é, cada vez mais, a regra nesta ilha onde impera uma democracia ‘sui generis’ e uma impunidade que aumenta na exacta medida da anormalidade onde andamos mergulhados há já demasiado tempo. E de tanto nos embrenharmos nesta estranha forma de vida, corremos o risco da anormalidade se institucionalizar como coisa própria, como única possibilidade de uma existência anómala que já nos define, mas que também nos corrói como um mal que ataca primeiro em silêncio e depois na ensurdecedora e longa excepção que é a vivência democrática na Madeira. O que aconteceu esta semana no Complexo do Marítimo não é aceitável, não tem explicação e muito menos perdão. De qualquer prisma que se analise a agressão gratuita a um jornalista por algo que escreveu, o resultado será sempre o mesmo: uma atitude que revela falta de cultura democrática e tentativa de intimidar no intuito de condicionar aquela que deve ser a liberdade de informar. Mas, pior do que isso, revela o agudizar de uma prática que já reina há muito, onde quase diariamente os jornalistas e os meios de comunicação social que não alinham na verdade institucional são perseguidos, enxovalhados e alvo das mais repudiáveis campanhas. E a falta de cultura democrática alastra, cada vez mais, a outras realidades. Aliás, só assim se explica que um médico, que pouco aparece no hospital, surja a criticar um direito constitucional como é o da greve. E fá-lo com toda a normalidade, vestido com a bata branca que pouco usa, e revelando um estilo que, infelizmente, nos soa a demasiado familiar, mas que não serve a uma instituição que se devia pautar por outros valores que não o recorrer a comparações de baixo nível, mesmo que embrulhadas com um suposto “respeito” que há muito se desfez na má educação generalizada. O pior é que tudo isto é demasiado dramático, e triste e condenável, além de ser a face visível de uma anormalidade bem mais profunda, com consequências que ultrapassam em muito as tristes palavras e os actos condenáveis. Continuarmos a viver ao arrepio de uma democracia digna desse nome, terá, a médio e curto prazo, consequências bem mais graves do que aquelas que já são visíveis. Hoje são os jovens médicos que não podem fazer a sua formação na Madeira, porque um hospital não cumpre as regras da avaliação, amanhã não se sabe o que mais deixará de ser possível. Contudo, uma coisa é certa, quando se vive à margem das regras da mais elementar democracia, todos ficam a perder, até mesmo aqueles que, hoje, preferem olhar para o lado e fingir que a anormalidade é perfeitamente normal.