Portugal aprovou o seu Orçamento mas não aliviou a pressão externa. E porquê, se esse era um dos grandes objectivos políticos dos seus autores? Por várias razões. Negociou-se o Orçamento, aos olhos da Europa, com o propósito de iludir os nossos financiadores externos mas, em simultâneo, assumiu-se, clara e inequivocamente, que o mesmo é mau. Um paradoxo sem igual! De um Orçamento sem hipóteses de aprovação, passou-se a um compromisso de Estado, com o comprometimento formal da maioria exigida, gerado num ambiente de profundo desentendimento, sem espírito patriótico, longe da causa comum e num palco de vaidades político-partidárias de ódios e pormenores desprezáveis. Sem dúvida, longe da serenidade reclamada! Aprovou-se o Orçamento e, de imediato, anteciparam-se as suas inevitáveis consequências nefastas para o país, reconhecendo, no mesmo, a incapacidade de mudar o sentido da crise. A mensagem de esperança mais indesejada! Viabilizou-se o Orçamento e, prontamente, pediu-se a cabeça do Governo pelo esperado incumprimento daquilo que ali se acordou, comungou e assinou. Sem dúvida, um descompromisso de futuro! Debate-se a especialidade do Orçamento e assume-se a necessidade de responsabilizar civil e criminalmente quem não cumprir o rigor na contenção das despesas, esquecendo-se que a responsabilização dos políticos deve ser imposta e generalizada e não referenciada, assim, demagogicamente e sem quaisquer consequências. Não havendo mais que debater, agendou-se, de imediato, a discussão nacional sobre as próximas legislativas, fazendo crer que ninguém acredita na execução do Orçamento. Mais irresponsabilidade! Portugal encarregou-se de fazer tudo, tudo, mesmo tudo, até a sua desgraça! Quem nos financia precisa de evidências de confiança e Portugal, não se governando nem se deixando governar, afirma, negligentemente, o seu elevado risco que se traduz no preço a pagar pela dívida externa nacional.

Eduardo Jesus, Economista