Lembro-me desta frase, dita há alguns anos pelo líder do PSD-Madeira. Falava Jardim num congresso nacional dos social-democratas quando se interrogava sobre o rumo que o partido estava a tomar. Pois é justamente assim que a Madeira anda nos últimos meses. Parece que anda tudo grosso, de facto. A começar pelo presidente. Cada vez mais fora do que dentro. Mais fora fisicamente da Região, e aparentemente mais fora dos dossiers e da governação. São saídas secretas inaceitáveis numa democracia adulta, são decisões tomadas em jeito de dono da quinta, qual 'Casa dos Segredos'. A diferença é que nesta produção regional, que a TVI não aproveita, não se ouve ninguém a assumir o papel do personagem que faz de "A Voz". Perdeu-se a voz da cidadania, que vem de dentro, o sentido da crítica justa, a observação pertinente, o reparo capaz de alterar uma decisão sem que isso represente uma desautorização. Em vez disso, cultivamos aquilo que parece ser um dos sinais exteriores do povo superior: a reacção à bruta, a violência, a agressão. Será lugar comum dizer que o que temos é o resultado do que somos enquanto sociedade hipnotizada pelo som do betão, do alcatrão, da inauguração e do dinheirão que isso representa. Para os mesmos, claro. Os anos que levamos neste ram-ram trouxeram-nos até aqui. Até uma Região que dá sinais de orgulho na boçalidade. Temos um presidente do governo, o mesmo que disse que a JSD deve ser uma máfia no bom sentido, que assume numa entrevista que ensina os netos "a serem malcriados, mas não muito pesadamente". Temos um líder parlamentar da maioria que chama nomes irreproduzíveis aos outros deputados, temos até um dirigente comunista que atira à ribeira material de propaganda de outro político. Temos presidentes de Câmara que mandam retirar cartazes da oposição. Temos autarcas que ofendem o primeiro-ministro numa reunião pública. Temos candidatos da JSD numa guerra aberta com linguagem pouco apropriada. E temos violência da mais pura e cruel que pode haver. Violência doméstica a níveis assustadores, homens que matam mulheres, assaltos como nunca e agora voltaram as facadas aos arraiais. E no meio desta semana assistimos àquela pérola do médico Marcelino Andrade e a proposta de um bordel para os colegas dele que falam da vida interna na praça pública ou que cometeram o 'crime' de fazer greve. Neste cenário pouco abonatório, surge a agressividade que passa das palavras aos actos. As bocas que se ouvem em todos os jogos nos Barreiros desta vez enervaram o presidente do Marítimo que agrediu o jornalista que as tornou públicas. Voltámos à parábola do mensageiro castigado pelo conteúdo da mensagem. Mas não só. Assistimos também à materialização das ameaças tantas vezes feitas, tantas vezes instigadas por gente que devia ser mais responsável. E, quase pior do que isso, a uma certa desculpabilização de jornalistas que fazem vista grossa, que olham para um lado, assobiam para o outro e que abanam a cabeça para cima e para baixo. Colegas que subvertem o princípio da verdade exibindo regras de um código, qual Bíblia que até podem saber de cor mas desconhecem o sentido. O que está em causa neste triste episódio nem é o jornalista A ou B, do jornal C ou D. O que está em causa é muito mais do que isso. É a ameaça tornada agressão e é a agressão feita ameaça permanente para outros casos. Já dizia o impoluto Jorge Coelho: "Quem se mete com o PS, leva!". Agora, sem o dizer, parece que quem não agrada ao presidente do Marítimo também leva. E pela medida grande. Felizmente que grande parte dos sócios pensantes distingue o presidente do clube, que os adeptos descomprometidos - nos quais me incluo - separam o homem da instituição. Mesmo assim, em muitas outras partes do mundo, qualquer presidente nas mesmas condições já teria pedido desculpas ou apresentado a demissão. Mais uma vez me lembro do líder do PSD-M quando perguntava se estava tudo grosso. Desta vez, porém, arrisco uma resposta: sim, sr. presidente! Está tudo grosso.