O cosmopolitismo sempre teve um poder de atracção que nunca consegui explicar. Sempre gostei do movimento, da agitação fluida e da ideia de poder ser mais uma a deslizar pela multidão. Incógnita na cidade. O meu conceito de metrópole não se compadecia com calcorrear ruas e ruelas e encontrar as mesmas caras, várias vezes por dia. E com a obrigação de sorrir e ter uma palavra a dizer, independentemente do estado de espírito.
Mas quando vim para a capital, há mais de uma década, depressa passou o encantamento. Percebi que a espontaneidade urbana que tanto me fascinava - e que tantas vezes me fez desdenhar o bucolismo simplório da Madeira rural onde me movimentava – na maior parte das vezes nada mais era do que indiferença. As pessoas não levitavam pela cidade em harmonia perfeita com esta. Corriam, frenéticas, como se estivessem em fuga constante. Sem ver os seres humanos por detrás das centenas de sem-abrigo que fazem das ruas de Lisboa a sua casa, o consumo de droga às claras, paredes meias com escolas, e a pobreza de bens e de espírito que abunda nos grandes centros. A sociedade parecia-me entorpecida na sua frieza e isso foi chocante.
Senti falta do calor das gentes de terras pequenas. Com aquele querer saber permanente que pisa o linha ténue que vai da preocupação sincera ao intrometimento. Senti saudades daquela ‘bilhardice’ pura e que não faz mal.
Um dia cruzamo-nos. Já tinha ouvido falar dele. O homem que fizesse chuva ou sol acenava junto ao Saldanha aos transeuntes. Chamavam-lhe o senhor do adeus, mas ele dizia que era o senhor do olá. Passou a cumprimentar todos para combater a solidão e tornou-se numa figura acarinhada da cidade. Como se a acordasse do marasmo com um simples acenar. Era uma espécie de injecção de vitalidade, uma lembrança de que não somos bonifrates. Ontem, descobri que se chamava João Manuel Serra quando li a notícia da sua morte. E senti, como muitos dos que vivem em Lisboa, que tinha perdido um amigo que me fazia sorrir sempre que me dizia olá em jeito de adeus.
Em tempos de crise, contestação, austeridade e adversidade é bom ter quem nos lembre que é preciso parar para ver, contemplar e sorrir. Um ‘louco’ que nos recorde das coisas simples. Bem sei que a alegria, por si, não paga dívidas, mas acredito que dá uma ajuda.
E por isso aceno hoje para o vazio, com um sorriso. No meu último adeus ao senhor do olá.