“Guiomar Teixeira” de Reis Gomes é uma peça de teatro que marcou uma época fazendo história no teatro português. Visionário, como era, Reis Gomes juntou projecções de cinema à encenação da peça tornando-a no primeiro momento em que tal aconteceu em Portugal. Segundo Luiz Peter Clode “foi o primeiro dramaturgo que (...) fundiu a acção do cinema com a do teatro, no último quadro da sua peça histórica: Guiomar Teixeira em que se desenrola ao fundo na tela uma batalha entre cristãos e muçulmanos, comentada no primeiro plano pelos intérpretes que se consideram dentro da fortaleza de Safin”. E mais, até prova em contrário, poderá, possivelmente, ter sido a primeira vez que tal aconteceu a nível mundial... Não é pois mais do que merecido que se procure levar a cena esta peça que só subiu ao palco por três vezes em 1913, outras tantas em 1914 (na sua versão italiana de Virgílio Biondi) e mais duas vezes em 1922, sempre no Funchal. A COM.TEMA pretende, logo que seja possível, levar esta peça aos palcos madeirenses. Deste modo homenagear-se-ia o autor e intelectual que tanto fez pela cultura da Madeira num espectáculo multimédia de som e imagem, transpondo a acção para os nossos dias em termos de ambiencias e cenários, mantendo João Gonçalves da Câmara, Tristão Teixeira, João Esmeraldo e Cristovão Colombo como personagens de época. Para que se possa fazer esta recontextualização, o texto necessita de pequenas adaptações, não sendo nossa intenção mudar em nada o modo de falar das personagens tal como foi escrito pelo autor. As alterações serão feitas com muito cuidado e não passarão de circunstanciais. A acção passa-se na Madeira, entre o Funchal e Machico, e na praça de Safi, onde decorrem as cenas da batalha. Para estas cenas pretende-se utilizar as imagens feitas no início do século XX no Caniço de Baixo, juntando-lhe imagens feitas agora. Temos bons actores, bons técnicos e cenógrafos, bons encenadores. Mas a falta de meios é gritante dada a enorme dificuldade em envolver importante parte do tecido empresarial regional neste tipo de projectos. Assunto ao qual voltarei em breve para falarmos da responsabilidade social das empresas. Reis Gomes não é o único autor regional de peças de Teatro. Outros há merecedores de verem os seus trabalhos perpetuados em palco. E urge olhar para o que é nosso com olhos de ver, porque se esperamos que sejam outros a fazê-lo é melhor esperarmos sentados...

Nuno Morna, actor