
A agressão é um crime inqualificável quando o autor é uma figura pública, líder de um clube com a dimensão do Marítimo, que deveria cultivar outros valores como o ‘fair play’. A reacção violenta deliberadamente exercida contra o jornalista do DIÁRIO com intuito de contestar ou retaliar algo que tenha sido escrito (como se não houvesse meios próprios para tal) é digno de uma democracia fantoche, de um Estado anárquico e de uma sociedade primitiva. Sobretudo depois de, a exemplo de outros dirigentes desportivos, Carlos Pereira obstruir o livre acesso à informação, boicotando a entrada para a cobertura de treinos e de competições desportivas a jornalistas de órgãos de comunicação social que escapam ao controlo do poder. E a verdade noticiada incomoda os senhores do futebol. Comportamentos como este são manifestações de desespero, de intolerância, reveladores da fraca convivência com a democracia e com a crítica livre.
Se Carlos Pereira fosse presidente de um país seria um Hu Jintao que cultiva um exército de amedrontados, e não teria pudor em meter na prisão e torturar quem afrontasse a sua ‘Grande Muralha’, por delito de opinião ou por um outro ilícito tipificado como tal num regime longe de ambicionar ser democracia. Quando um homem está muito ocupado em censurar os outros, não tem tempo para examinar-se a si próprio. Quem reage com violência revela falta de argumentos para justificar as suas motivações e quem assim é não tem lugar na presidência de um clube como o Marítimo porque desonra a sua história. Discordar das notícias não justifica ‘matar’ o mensageiro. Agredir não é uma manifestação de força mas uma revelação de fraqueza. É subscrever a ignorância que se alastra e que agora compromete a dignidade de milhares de sócios e simpatizantes verde-rubros e os valores que norteiam um clube secular. Esta ditadura agarrada ao leme do clube do Almirante Reis está a provocar um lento naufrágio. Perdem-se sócios, perdem-se jogos, perdem-se receitas e, agora, perde-se a razão.
Mas a geração do insulto e da chapada não surge por acaso, nem é exclusiva dos dirigentes desportivos. Há menos de três meses, o presidente do Governo Regional instigou, numa cerimónia pública de inauguração do redimensionamento da Escola Básica do 1º Ciclo do Lombo de São João, na Ribeira Brava, os adeptos do Marítimo a fazerem do DIÁRIO ‘inimigo público’, incomodado com uma manchete do matutino que publicava o balanço de resultados pouco abonatórios para o clube. Este mau convívio com a crítica e com a verdade nasceu de um regime político habituado a controlar quase tudo o que é noticiado, através de uma instrumentalização ilegal sobre órgãos de comunicação social que o Governo Regional detém, usa e dispõe aos seus parceiros, como uma teia sobre a qual se eternizam poderes, se manobram influências e se branqueia a opinião pública, lançando nas páginas de um jornal oferecido ‘opinion makers insuspeitos', também eles pagos pelos contribuintes, com carteira profissional num bolso e com o cartão do partido do poder no outro.
Este vício político de amedrontar o jornalismo é uma caricatura à pluralidade e à liberdade de imprensa na Madeira que urge corrigir, sob pena de assumir contornos mais gravosos, ao nível de uma Coreia do Norte ou de uma Eritreia. “Os dias prósperos não vêm ao acaso; são granjeados, como as searas, com muita fadiga e com muitos intervalos de desalento”, escreveu Camilo Castelo Branco, há 150 anos. Isto para dizer que os direitos à liberdade de imprensa e de expressão na Madeira, apesar de consagrados, só existem realmente se forem reconquistados todos os dias. Tomara que todos o fizessem.